Oddish volta à cena trocando socos com seus demônios – Bocada Forte

Oddish volta à cena trocando socos com seus demônios – Bocada Forte

No início deste mês de maio, quando conversei com Oddish Castro sobre o álbum  “Deus me Louvre”, ficou evidente desde o começo que eu não estava diante de um artista que fez  disco pensado para agradar algoritmo, seguir tendência ou tentar se encaixar em alguma estética dominante do rap atual.

Oddish  criou e caminhou sobre ruas destroçadas demais para querer fingir que não odeia o jogo e grande parte dos jogadores. Ele não inventou um personagem para guiar sua narrativa.  Seu sarcasmo rimado é resultado de um período pesado da sua vida, atravessado por burnout, crise financeira, fome, isolamento, críticas de integrantes da cena e pensamentos suicidas. 

Durante a entrevista, Oddish falou de maneira direta sobre como o processo de criação acabou funcionando como sobrevivência. O MC disse que, diferente de trabalhos anteriores como “Ponteiros Voam Feito Jatos” (2014) e “Onironauta” (2021), que levaram cerca de um ano para serem concluídos, “Deus me Louvre”, mais uma parceria com o produtor Degraus, nasceu em apenas cinco meses. Segundo ele, foi um momento em que precisava encontrar algum propósito para continuar. 

“Eu tenho um home studio aqui. Porra, era tipo bate-bola, Degraus mandava o beat e eu falava vamos tentar outra. Ele mandava outra track. Porra, é esse aqui. Era canetada, estúdio, mandava guia, ele já mandava o wave, fechava e toma. E foram dois tratados que nós fizemos: primeira coisa, não vai ser um disco triste. Não admitiríamos que o álbum tivesse uma estética triste. E segunda, ia ter feat., porque eu tenho 20 anos de rap e pouca colab na minha vida, na minha carreira.”

O próprio título do disco apareceu quase como um estalo. Depois de considerar nomes como “Mona Libra” e “Mano Liso”, Oddish chegou ao jogo de palavras entre “Deus me livre” e o museu francês Louvre. A proposta era criar o que ele chamou de uma “obra de arte suja”. A capa, em que aparece reinterpretando a Mona Lisa, acompanha essa ideia de desconforto, ironia e provocação.

Sobre letras e dores

Uma das partes mais fortes da conversa aconteceu quando o MC falou sobre o abuso sexual sofrido na infância. O tema aparece na faixa “O maior desabafo da minha vida” e, segundo o rapper, surgiu inicialmente como um desabafo, sem intenção de entrar no disco. Ao longo da entrevista, Oddish deixou claro que não trata o assunto buscando choque ou exposição gratuita. Ele não quer ser confundido com os artistas que seguem a lógica das mídias sociais e suas metas de engajamento em cima da dor alheia. A música funciona como enfrentamento direto da violência e também da culpa que normalmente recai sobre quem sofreu esse tipo de abuso.

“Cara, sendo bem específico com você, sendo bem direto, bem específico mesmo: em 2022, foi a primeira vez que eu …Desculpa, mas em  2022…só um minuto.(Oddish interrompe sua fala. Acredito que ele tenta segurar o choro e voltar ao equilíbrio para continuar)

Em 2022 foi a primeira vez que eu falei abertamente que eu fui abusado sexualmente quando era criança. E eu sempre tive muito medo de falar essa parada porque a gente sabe como funciona o patriarcado, a gente sabe como funciona a sociedade. A gente sabe como funciona o rap.

Então, a partir do momento em que você, enquanto homem, enquanto rapper, você verbaliza que você foi estuprado, é muito pesado. Eu me sinto (mais uma breve pausa). 

(Eu, o entrevistador, tento…Na verdade, eu nem sei o que fazer).

Não tem problema nenhum falar disso, eu preciso falar disso. Eu realmente tenho necessidade de falar disso. Quando eu decidi colocar isso no disco, mano, e foi uma coisa muito natural, DeGraus me mandou um beat, o disco já tinha seis a sete faixas. Eu não gravei na intenção de que essa música estivesse no disco”, conta o MC..”

Na track “Horrível”, Oddish também fala de frases que ele ouviu durante toda a infância dentro de uma família disfuncional, especialmente a ideia de que seria “uma pessoa horrível” ou um fracassado. No disco, ele transforma essas marcas em ironia e confronto. Em vez de esconder fragilidades, o rapper expõe feridas antigas de forma crua, como se dissesse: Ouça, mas não chegue tão perto.

“Eu passei fome durante o período do burnout, irmãos que não desistiram de mim que seguraram a onda. outros amigos me ajudaram, outros abandonaram, deram as costas. Eu vi pessoas querendo me dar lição de moral quando eu estava no período mais agressivo da minha depressão. Eu estava quatro dias sem tomar banho, só levantava para ir na geladeira pegar cerveja.

Eu vi gente dizendo que eu era vagabundo, mano. Vá trabalhar, mano. Vá pegar qualquer coisa para fazer. Tá ligado? Eu me afundei no bagulho do álcool mesmo. Eu passei por muito bagulho, Corte, nos últimos 10, 11 meses. Ainda tenho passado, mas as coisas tem se aprumado aos pouquinhos.”

O som da cura

“Deus me Louvre” mergulha no boom bap. A produção de Degraus Beats sustenta o álbum com baterias pesadas, samples densos e uma sonoridade que dialoga diretamente com o rap underground atual. A parceria entre os dois começou em 2017, na faixa “Azul e Cinza”, e desde então acumulou singles, EPs e outros projetos.

Numa conversa via WhatsApp, Degraus me contou que esse álbum representa de maneira mais fiel a identidade artística da dupla. Segundo o produtor, tanto ele quanto Oddish encontram no boom bap o espaço mais natural para trabalhar suas ideias. Também destacou que o disco nasceu em meio a dificuldades pessoais intensas, algo que acabou atravessando as letras de maneira inevitável.

Natural de Curitiba, Degraus produz desde 2010 e construiu sua trajetória influenciado por nomes como DJ Premier. Ao longo dos anos, trabalhou com artistas como Max B.O., Eltin e Fabio Beleza, além de dividir eventos com nomes como Edi Rock, Gabriel Pensador, Flora Matos e DJ Hum.

O disco ainda traz participações de Lezin, Ravi Lobo e novamente Max B.O., ampliando a força do projeto sem quebrar sua unidade sonora.

Degraus beats. O parceiro.

Posicionamento na cena

Em outro momento da minha conversa com Oddish, o artista falou sobre a falta de originalidade que enxerga no rap brasileiro atual. Criticou a repetição de fórmulas e a quantidade de artistas que passam a reproduzir estéticas prontas depois que determinados nomes ganham projeção. Para ele, existe hoje uma pressão constante para que artistas moldem a própria identidade em função do mercado.

Na contramão disso, citou nomes que, segundo ele, conseguiram crescer mantendo personalidade própria, como BK, Vitor Xamã, Rashid e Matéria Prima.

Também falamos sobre a diferença entre batalha de MC e rap autoral. Para Oddish, apesar de fazerem parte do mesmo universo cultural, funcionam de formas diferentes. Enquanto a batalha exige postura agressiva constante, o rap permite mostrar fraqueza, trauma, insegurança e contradições.

“Deus me Louvre” atravessa tudo isso sem tentar construir aquele papo de herói do gueto, soldado da resistência ou mestre da superação.. O disco alterna agressividade, humor ácido, dor e autocrítica sem transformar sofrimento em comida para alimentar as big techs e a fome dos zé povinhos que consomem polêmicas em páginas de rap.. Em determinado momento da conversa, Oddish resumiu o trabalho como um disco em que finalmente deixa de apenas apanhar dos próprios demônios para começar a trocar socos com eles.

“Esse disco salvou minha vida também, cara, porque eu me vi com um propósito. É, uma das poucas coisas na minha vida que eu digo assim, que eu posso bater no peito e dizer: ‘Eu sou muito foda é fazendo rap’. Tá ligado? E eu não tenho que ter vergonha de dizer que eu fui abusado. Quem tem que ter vergonha é o filho da puta que fez isso, cara!. Eu meio que apanhava dos meus demônios. Nesse álbum, eu resolvi trocar soco com eles”.

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