A defesa do SUS se conecta diretamente com a realidade da cultura Hip-Hop – Bocada Forte

A defesa do SUS se conecta diretamente com a realidade da cultura Hip-Hop – Bocada Forte

Nas periferias, onde o hip hop se organiza como prática cultural e social, o fortalecimento do sistema público de saúde define as condições materiais de existência de toda uma geração

O Sistema Único de Saúde (SUS) é resultado direto de décadas de mobilização popular e disputa política em torno da ideia de que saúde deve ser um direito, e não um privilégio. Essa conquista ganha dimensão concreta nas periferias brasileiras, onde a cultura hip hop se desenvolve e onde a maioria de seus agentes depende exclusivamente do sistema público para sobreviver. Em um país marcado pela informalidade, o SUS garante acesso a consultas, tratamentos, vacinação e acompanhamento contínuo que não seriam possíveis por vias privadas.

Antes da criação do SUS, a realidade era outra. O acesso à saúde estava vinculado ao emprego formal e à contribuição previdenciária. Quem não tinha carteira assinada ficava de fora e dependia de caridade, hospitais filantrópicos ou serviços precários oferecidos de forma limitada nas periferias . Esse modelo aprofundava desigualdades e deixava grande parte da população, especialmente negra e periférica, sem atendimento regular. A expansão urbana e o crescimento das periferias pressionaram o Estado, levando à criação de postos de saúde improvisados e políticas emergenciais que anteciparam, ainda de forma fragmentada, o que viria a ser o SUS .

A virada acontece com a Constituição Federal de 1988, que estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado. A partir desse marco, o SUS se estrutura como sistema universal, gratuito e descentralizado, consolidado pela Lei 8.080 de 1990 e impulsionado pelo movimento sanitário e pela participação popular . O que antes era restrito a uma parcela da população passa a alcançar milhões de brasileiros, transformando o acesso à saúde em política pública de larga escala.

Esse avanço, no entanto, entra em choque com a lógica neoliberal que ganha força nas últimas décadas. A defesa da redução do Estado, os cortes de investimento e a transferência de recursos para o setor privado enfraquecem a capacidade do SUS de atender plenamente a população. A partir de 2016, esse processo se intensifica, afetando diretamente o financiamento e a estrutura do sistema. O resultado aparece no cotidiano das periferias: filas, falta de profissionais e precarização do atendimento, atingindo diretamente quem depende exclusivamente do serviço público.

A relação do governo Bolsonaro com o Sistema Único de Saúde (SUS) foi marcada por uma tentativa de decreto em 2020 para incentivar a participação privada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), que foi posteriormente revogado. Críticos acusaram o governo de tentar privatizar o sistema, enquanto apoiadores alegavam buscar eficiência

Mesmo sob pressão, o SUS segue como principal rede de atendimento para a maioria da população brasileira e como única alternativa para grande parte dos trabalhadores da cultura hip hop. Em eventos, estúdios, batalhas e circuitos independentes, é o sistema público que absorve emergências, garante tratamentos e sustenta a continuidade da produção cultural. Sem essa estrutura, o impacto seria imediato sobre quem já enfrenta condições instáveis de trabalho e renda.

A retomada de investimentos recentes aponta para uma tentativa de reorganização do sistema, com ampliação de equipes e programas de atenção básica. Ainda assim, o subfinanciamento histórico e a presença de interesses privados continuam colocando em disputa o futuro da saúde pública no país. 

Discutir o SUS, portanto, não é um tema distante do Rap e do Hip-Hop. É falar sobre quem consegue se manter vivo, produzir e circular. A crítica ao neoliberalismo passa pela compreensão de que transformar a saúde em mercadoria amplia desigualdades e exclui justamente quem mais precisa. Nas periferias, onde o hip hop se organiza como prática cultural e social, o fortalecimento do sistema público de saúde define as condições materiais de existência de toda uma geração.

 

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