No álbum “Imundo”, o rapper Hiran constrói um percurso marcado por deslocamentos, tensões com a cena e um processo de reorganização após perdas e conflitos internos. O trabalho parte de experiências concretas e registra um momento em que identidade, carreira e pertencimento entram em disputa. Ao longo das faixas, que se dividem entre a estética do o rap mais contundente e construções com elementos pop, o artista articula vivências na Bahia, relações com a espiritualidade e embates com o próprio rap.
“Inadmissível”, com participação de Amabbi e Preta Chave, nasce de um encontro em Salvador e se ancora na experiência de deslocamento. A faixa parte do olhar de quem chega à cidade pela primeira vez e se amplia com a perspectiva de Hiran, que saiu de Alagoinhas e construiu outra relação com a capital baiana. A música trata do que inicialmente parece não caber, mas, ao ser vivido, revela outras camadas de afeto e leitura do território. A Barra aparece como espaço recorrente de circulação e observação.
“A composição começou pela Amabbi, que mora em São Paulo e estava vindo para Salvador pela primeira vez receber um prêmio, onde eu ia me apresentar. Eu já era fã dela e acabei conhecendo ela e a Preta Chave lá. Quando ela trouxe essa vibe da transformação vinda da estadia em Salvador e os atravessamentos disso, me identifiquei de cara porque sou de Alagoinhas, uma realidade muito diferente daqui. O meu verso traz muito da minha experiência hoje, como um homem casado, que ama morar aqui e que vê amor e beleza nas entrelinhas das coisas mais complexas que envolvem a cidade. A Preta Chave foi a cereja do bolo, veio com a rima mais forte que podia trazer e, no fim, a música estava pronta”.
A tensão com o pertencimento ganha forma direta em “Rap Não”. O artista aponta uma contradição presente desde o início da carreira: o reconhecimento de nomes como Caetano Veloso e Ivete Sangalo não se converteu em inserção no circuito do rap.
“Desde o começo da minha carreira. Meu primeiro disco é um disco de rap e eu nunca fiz um evento de rap até hoje, mesmo já tendo feito mais de 200 shows importantes. Senti que as pessoas que eu admirava e que entendiam de música me abraçaram e me queriam por perto, menos as que viviam no ambiente do rap. Isso sempre foi contraditório para mim, mas superei e consegui dar a resposta que eu precisava para tirar essa aflição do peito.”

O disco também abre espaço para outras atmosferas. “Já Que Bateu” desloca o tom e incorpora referências à praia da Barra em uma abordagem mais leve, com participação de Alfão.
“Eu queria ter Alfão no meu disco, ele é uma pessoa que me alegra e sempre tem um astral contagiante. Não queria que fosse só um álbum de protesto, mas de retomada na caminhada no hip hop em diferentes atmosferas, inclusive as positivas. Quis falar de um lugar mais tropical e descontraído. Eu vou muito à praia da Barra e foi fácil puxar a inspiração daí.”
O ponto de inflexão aparece em “Pai”. A morte recente do pai reorganiza o sentido do trabalho e impulsiona o processo criativo.
“Perdi meu pai ano passado. Ele sempre fez o que quis, independentemente do que diziam, e ainda assim era uma pessoa boa, sempre optou por fazer o bem. Esse é o legado dele para mim. A vontade de fazer esse disco veio depois disso. A urgência de estar vivo e fazer o que eu sentia que precisava, independentemente do contexto, me levou a um lugar de paz com a partida dele.”
Esse movimento se intensifica em “Supernova”, que traduz um processo de ruptura e reconstrução dentro da trajetória artística.
“Eu vivo me reconstruindo enquanto artista, mas nunca fui tão extremo como nesse disco. E Tom é um amor de pessoa, colou junto e entrou na mesma onda que eu. Foi a música mais bonita de gravar.”
A crise de direção aparece em “Um Pouco de Cada Pedaço”, quando o artista reconhece ter seguido expectativas externas até perder a própria referência.
“Sempre segui conselhos dos outros e acabei me perdendo, a ponto de não saber mais o que queria fazer. Quando fui ouvir minha própria voz, essa música saiu como um grito, um desabafo, um processo de cura interna.”
Em “Armadura”, a necessidade de proteção aparece ligada às experiências acumuladas ao longo da trajetória.
“É difícil, como homem preto e gay, fugir da síndrome de vira-lata. Essa música é uma oração para mim mesmo, para lembrar do que já fiz, do que conquistei e do orgulho da minha mãe. É um mantra para manter a cabeça no lugar.”
A dimensão espiritual atravessa “Exu Me Avisou”, com a presença de Exu como referência de orientação.
“Sou iniciado há cinco anos e minha relação com Exu sempre foi muito forte. Ele é meu melhor amigo e, no meio do processo do disco, veio para me curar e levantar meu astral. Iara e Thay são grandes cantoras e mulheres de candomblé. Fizemos esse ponto para mostrar que ele está com a gente em todo o processo.”
O território volta ao centro em “Sertão Diferente”, construída a partir do diálogo com JongoZu e de experiências fora dos grandes centros.
“Sou do Litoral Norte, agreste da Bahia, onde tudo é bem diferente de Salvador. Quando conheci o JongoZu, de Mossoró, me conectei com ele pela distância da capital e por como crescer nesses lugares traz outra visão de mundo. A gente tinha muito em comum e isso virou uma das minhas faixas favoritas.”
Em “Superman”, a crítica se volta ao mercado e às suas dinâmicas de exclusão.
“As pessoas que têm dinheiro para mudar a realidade de artistas LGBTQIAPN+ no rap poderiam propor coisas novas, mas optam por excluir, não citar, não trazer para perto. Isso já me causou revolta, mas transformo isso em música. Foi o caso de ‘Superman’.”
A circulação internacional aparece em “Black Loro”, a partir de experiências fora do país que ampliaram a percepção do artista sobre sua trajetória.
“Ser bem recebido com shows cheios fora do Brasil nunca passou pela minha cabeça. Vindo de Alagoinhas, chegar em Salvador já era um sonho. As conexões e experiências em outros países mudaram minha forma de ver o mundo. Encontrei Tássia na Europa, enquanto estávamos em turnê, e quando decidi fazer essa música, tinha que ser com ela.”
Na reta final, “Fim” expõe um ponto de vulnerabilidade assumido de forma direta.
“Quero deixar algo de bom para quem cresce com dificuldades e ‘monstros’ na cabeça como eu cresci. Às vezes tenho medo de não estar fazendo a coisa certa. Sempre escondi isso, mas nesse disco não tinha como fugir.”
A faixa-título, “Imundo”, concentra os elementos que atravessam o trabalho. O artista descreve a sensação de ocupar espaços que não reconhece como seus e, ao mesmo tempo, ser afastado de ambientes onde buscava inserção.
“Sempre vivi essa dualidade. Estive em lugares que ninguém da minha realidade chegou perto, mas que não eram os que eu sonhava. Isso me confundia. Eu vivia um sonho que às vezes não parecia meu. De um lado, culpa por não parecer grato; do outro, a rejeição do ambiente onde queria estar. Isso me fazia sentir como se tivesse uma mancha que me impedia de ocupar certos espaços. Não queria carregar isso comigo, então dei esse nome ao disco, falei sobre isso e deixei tudo transbordar durante a gravação. Quando lancei, já estava curado.”
OUÇA:
, https://www.bocadaforte.com.br/materias/hiran-confronta-deslocamentos-e-redefinicoes-em-imundo-seu-quinto-album