Extrema direita, conservadorismo, Hip-Hop e a disputa sobre quem tem direito à palavra – Bocada Forte

Extrema direita, conservadorismo, Hip-Hop e a disputa sobre quem tem direito à palavra – Bocada Forte

Clodoaldo Arruda, Juliana Sete e Fábio Emecê rebatem os argumentos da ala que quer barrar o avanço da luta contra as desigualdades no Brasil

Nas redes sociais, podcasts, livros e parte do debate político contemporâneo capiteneado pela extrema direita, tornou-se recorrente a tentativa de desqualificar militantes do HIp-Hop e movimentos ligados aos direitos humanos, à igualdade racial, aos direitos das mulheres, da população LGBTQIAPN+ e ao combate às desigualdades sociais. Frequentemente, integrantes desses setores são apresentados como “pseudointelectuais”, supostamente incapazes de sustentar argumentos racionais e dependentes apenas de apelos emocionais.

A crítica não é nova. Ao longo da história, reivindicações por direitos civis, trabalhistas e sociais foram frequentemente tratadas como irracionais ou excessivamente ideológicas por grupos interessados na manutenção das estruturas existentes. No Brasil, discussões sobre racismo, violência policial, acesso à educação e concentração de renda são sustentadas por décadas de pesquisas acadêmicas, levantamentos estatísticos e análises produzidas por universidades, institutos de pesquisa e organizações da sociedade civil.

Ao mesmo tempo, a acusação de que pautas de justiça social seriam movidas exclusivamente por emoção ignora que toda posição política mobiliza valores morais. Defesas da meritocracia, do livre mercado ou da redução da atuação do Estado também carregam concepções éticas sobre sociedade, liberdade e responsabilidade individual.

Foto: Marcela Rocha/Artchela.art

 

Dentro da cultura Hip-Hop, essa discussão possui um significado particular. Desde suas origens, o movimento foi acusado de produzir discursos excessivamente ideológicos ao denunciar racismo, violência e exclusão social. Em diversos momentos, porém, denúncias presentes nas letras de Rap encontraram respaldo posterior em pesquisas acadêmicas, investigações jornalísticas e dados oficiais.

Para o educador, MC, filósofo, militante e pesquisador Clodoaldo Arruda, a tentativa de reduzir defensores dos direitos humanos, da igualdade racial e da justiça social à condição de pseudointelectuais parte de uma visão limitada sobre a produção do conhecimento.

“O discurso que reduz defensores dos Direitos Humanos, da igualdade racial ou da justiça social à condição de ‘pseudointelectuais’ parte da suposição de que estas pautas seriam movidas principalmente por emoção e não por reflexão. Entretanto, como argumenta Sueli Carneiro, a produção de conhecimento nunca esteve dissociada das relações de poder que definem quem pode falar e quem merece ser ouvido.”

Segundo ele, as experiências de populações negras, periféricas, indígenas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ foram historicamente excluídas dos espaços de legitimação do saber.

 “Nesse contexto, a reivindicação de igualdade e reconhecimento não constitui uma tentativa de substituir a razão pela emoção, mas de ampliar o campo do conhecimento para incluir perspectivas historicamente silenciadas.”

Arruda também relaciona essa discussão ao pensamento de Paulo Freire, para quem a compreensão crítica da realidade surge da articulação entre reflexão e experiência concreta.

 “Não existe diálogo verdadeiro quando determinadas vivências são desqualificadas como mero sentimentalismo ou quando a luta por justiça é tratada como obstáculo ao debate racional. A denúncia das desigualdades sociais, do racismo ou da violência não representa uma fuga da razão, mas uma forma de confrontar aspectos da realidade que muitas vezes permanecem invisíveis para aqueles que não os vivem.”

Na avaliação do MC, filósofo e  pesquisador, o Hip-Hop ocupa papel central nesse processo por produzir interpretações da realidade a partir das experiências das periferias.

 “Como demonstrou Stuart Hall, a cultura é um espaço de disputa por significados, identidades e narrativas sobre o mundo social. Ao transformar a experiência cotidiana das periferias em música, poesia, dança e reflexão crítica, o Hip-Hop não abandona o pensamento racional, muito pelo contrário, ele produz interpretações originais da sociedade a partir daqueles que vivem suas contradições. Reduzir esse movimento a um discurso ideológico ou emocional significa ignorar sua capacidade de elaborar conhecimento, memória e consciência crítica sobre a realidade brasileira.”

A MC e arte-educadora Juliana Sete aponta que a própria ideia de quem pode ser considerado intelectual está ligada às desigualdades históricas do país.

 “Num país marcado pelo racismo, pela desigualdade e por gerações inteiras que tiveram o acesso ao conhecimento negado. Minha avó, por exemplo, não foi alfabetizada, uma realidade comum em muitas famílias brasileiras. É evidente que existe uma imagem construída sobre quem pode ou não ser reconhecido como intelectual.”

Para ela, a desqualificação de determinados conhecimentos ocorre quando eles não surgem dos espaços tradicionalmente reconhecidos pela elite como produtores legítimos de saber.

 “A tentativa constante de desqualificar determinados conhecimentos quando eles não nascem dos espaços considerados oficiais, como se pensar política, sociedade e as próprias condições de existência dependesse exclusivamente de um diploma ou de onde você trabalha”. 

Juliana destaca que o Hip-Hop desafia essa lógica há décadas.

 “Hoje vemos nomes como Mano Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock reconhecidos como doutores honoris causa justamente por uma trajetória de elaboração de pensamento construída a partir da arte, da rua e da realidade concreta. Tudo é político. É isso, é político demais da conta. Temos as pedagogias Hip-Hop também, sendo uma tecnologia de trocas e aprendizagens dentro de espaços de educação.”

Segundo ela, quando grupos historicamente afastados dos espaços de poder passam a elaborar leituras críticas sobre a sociedade, frequentemente são acusados de vitimismo ou emocionalismo.

 “Quando pessoas negras, indígenas, periféricas, grupos historicamente e propositalmente afastados desses espaços começam a expor uma leitura crítica sobre o mundo, opinião política a favor de direitos humanos e manutenção digna da sua existência, vem o papagaio do vitimismo, emoção ou falsa intelectualidade.”

A arte-educadora afirma que existe uma diferença entre discursos vazios e a nomeação de estruturas concretas que afetam a vida cotidiana.

 “Quem nasce na periferia, aldeias, sertão, aprende muito cedo a interpretar território, economia, desigualdade e relações de poder. Antes mesmo de acessar determinados livros, muita gente já estava fazendo leitura social e política através da própria experiência. Intelectualidade orgânica.”

Ela também atribui ao Hip-Hop um papel fundamental na formação política e intelectual das periferias.

 “O Hip-Hop foi fundamental nessa construção porque trouxe luz a essas pessoas, a essas vivências em linguagem e consciência coletiva e popular. O Rap fala sobre violência policial, racismo, ausência de oportunidades ou contradições sociais, afeto, origem e sonhos. Traz o debate político para a internet, para a casa do playboy, apresentando uma análise sobre uma realidade em primeira pessoa.”

 “Foi através dessa cultura que muita gente conheceu referências como Malcolm X, Che Guevara, Black Panthers e passou a pesquisar, questionar, construir identidade e entender o próprio lugar no mundo. O Hip-Hop é uma tecnologia de formação intelectual da favela. Ele organiza pensamento, provoca reflexão e cria ferramentas para que a periferia conte a própria história e defenda o próprio lado.”

 

 

O MC, professor e pesquisador Fábio Emecê avalia que existe uma contradição frequente nos ataques direcionados às pautas de justiça social.

 “É interessante que se está produzindo algum tipo de antídoto argumentativo com relação a ideias relacionadas à justiça social e afins. Só que eles não sabem se atacam uma suposta emocionalidade do nosso discurso ou uma suposta complexidade do mesmo.”

Para ele, a alegação de que discursos voltados à reparação social seriam excessivamente complexos não se sustenta diante da própria história brasileira.

 “A suposta complexidade é controversa, uma vez que historicamente somos um país de formação de revoltas contra a ordem insurgente. De revoltas mais amplas ou mais pontuais, nunca se aceitou o status quo pacificamente. É uma evidência de que as pessoas entendem o nosso discurso. Ele é menos complexo do que se tenta dizer e quem busca justiça sabe o que falar e a quem enfrentar.”

Sobre a acusação de que movimentos sociais seriam excessivamente emocionais, Emecê questiona os critérios utilizados pelos setores conservadores.

 “Não há nada mais emocional do que considerar alguém um mito. Ainda mais se percebendo quem é essa pessoa que se chama de mito. Há alguma racionalidade nisso? Nenhum discurso é 100% racional. Pelo menos não os discursos feitos por humanos.”

O rapper também ironiza os parâmetros de intelectualidade adotados por parte da extrema direita.

 “Se considerarem o que defendemos como pseudointelectual, gostaria muito de apreciar o que a extrema direita tem considerado intelectualidade ou exemplo de inteligência. Sério, fiquei curioso.”

Embora reconheça que posições políticas podem ser questionadas e contestadas, Emecê afirma que existe um esforço permanente para apresentar discursos conservadores como portadores exclusivos da racionalidade.

 “Nossos posicionamentos são passíveis de ser refutáveis, questionáveis, é fato. Só fico meio de cara com essa tentativa constante da extrema direita de subestimar seu público-alvo e realmente fazê-los acreditar que há racionalidade e apuro intelectual no que eles apresentam. Pessoas que rezam para pneu ou se penduram em carretas.”

No centro dessa disputa está uma questão antiga: quem tem legitimidade para produzir conhecimento sobre a realidade brasileira. A trajetória do Hip-Hop demonstra que experiências vividas nas periferias também geram interpretação social, elaboração política e produção intelectual. O reconhecimento institucional de artistas, educadores e pesquisadores oriundos dessas trajetórias reflete um processo que há décadas já ocorre nas ruas, nos palcos, nas escolas e nas comunidades.

, https://www.bocadaforte.com.br/materias/extrema-direita-conservadorismo-hip-hop-e-a-disputa-sobre-quem-tem-direito-a-palavra

Autor