“De Menor – A Série”, que estreia em 25 de junho no Canal Brasil, aborda racismo estrutural, desigualdade e os julgamentos enfrentados por adolescentes em situação de vulnerabilidade
Depois de circular por importantes festivais nacionais e internacionais, “De Menor – A Série” chega ao Canal Brasil no próximo dia 25 de junho com uma proposta ousada: provocar reflexões sobre como a sociedade e o sistema de justiça enxergam adolescentes em conflito com a lei. Dirigida por Caru Alves de Souza, a produção acompanha audiências judiciais envolvendo jovens em situação de vulnerabilidade e aborda temas como racismo estrutural, violência institucional, desigualdade social, encarceramento feminino e os mecanismos de julgamento presentes na sociedade contemporânea.
Ao longo de seis episódios, a série abandona o formato tradicional para transformar as audiências em musicais, talk shows, podcasts, games e vídeos no estilo react. Todas as histórias são encenadas em um palco de teatro que expõe suas estruturas, sem esconder bastidores, cordas ou camarins. A escolha busca evidenciar que existe uma construção social por trás das tragédias retratadas.
Em entrevista ao Notícia Preta, Caru Alves explicou que a proposta nasceu da necessidade de discutir diferentes formas de julgamento presentes na sociedade.
“A ideia de assumir diferentes formatos veio da necessidade de jogar com diferentes perspectivas e lógicas existentes na sociedade e, consequentemente, no sistema de justiça que está inserido nessa sociedade. O episódio onde uma audiência vira um talk show é exemplar dessa proposta: quantas vezes não vimos o sistema judiciário transferir a responsabilidade do julgamento de uma pessoa à opinião pública?”, afirma.

A diretora explica que a série foi construída a partir de duas premissas centrais: não naturalizar as desigualdades e revelar as estruturas que sustentam determinados processos sociais.
“Nós não queríamos esconder nenhuma estrutura. Mostramos os bastidores, as cordas, os camarins. A quebra da quarta parede e a exposição dos mecanismos da encenação servem para lembrar o espectador de que ele também faz parte daquela discussão e para convidá-lo à reflexão”, explica.
Racismo, gênero e desigualdade no centro da narrativa
Embora cada episódio apresente uma história diferente, questões raciais e sociais atravessam toda a série. O primeiro episódio, por exemplo, aborda diretamente o racismo estrutural e a forma como pessoas negras são tratadas pelo sistema de justiça. Outros capítulos discutem o encarceramento feminino, a influência de relacionamentos abusivos na criminalização de mulheres, além dos impactos da cultura digital e da misoginia entre adolescentes.
Para Caru Alves, tratar desses temas exigia uma construção coletiva.
“Eu sentia que eram muitos temas atravessando muitas pessoas ao mesmo tempo. Não era possível construir isso sozinha. Tenho apenas a minha experiência de vida. Por isso, reunimos diferentes olhares, trajetórias e experiências para tentar chegar mais perto da complexidade dessas questões”, conta.
O processo criativo envolveu juristas, jovens que já passaram por audiências judiciais, roteiristas, atores e atrizes da produção. Segundo a diretora, oficinas de escrita criativa serviram de base para o desenvolvimento das histórias.
“Eu ministrei algumas sessões de escrita criativa junto a juristas, jovens que já haviam passado por audiências e algumas atrizes da série. Esses exercícios serviram de inspiração para as escaletas dos episódios, que depois foram desenvolvidas coletivamente”, explica.
A colaboração continuou durante os ensaios. Temas como a cultura gamer e os grupos misóginos da internet, retratados em um dos episódios, foram aprofundados com a contribuição do próprio elenco.
“Eu não entendia nada de games. Alguns atores que conheciam esse universo fizeram verdadeiros workshops para a equipe. A série foi construída com muito debate, rodas de conversa e troca de experiências”, relembra.
Crítica ao sensacionalismo e à opinião pública
Entre os episódios, um dos que mais chama atenção transforma uma audiência judicial em um programa de televisão sensacionalista. A narrativa questiona a transformação do sofrimento humano em entretenimento e o papel da opinião pública nos julgamentos.
Durante a entrevista, Caru afirmou que a ideia surgiu após a equipe analisar programas televisivos focados em crimes e julgamentos.
“Ficamos muito tocados pela forma como determinadas tragédias eram transformadas em entretenimento. A pergunta que nos guiou foi: que tipo de sociedade transforma o sofrimento alheio em espetáculo?”, questiona.
A diretora destaca ainda que a série busca refletir sobre como preconceitos e julgamentos prévios influenciam a forma como a sociedade enxerga adolescentes em situação de vulnerabilidade.
“Quero convidar o espectador à reflexão: a Justiça é igual para todos? Somos realmente imparciais ao olhar para adolescentes em situação de vulnerabilidade ou já existe uma predisposição para o julgamento e uma indisponibilidade para enxergar a complexidade que existe nessa situação?”, provoca.
Estreia após passagem por Berlim
Produzida pela Tangerina Entretenimento, De Menor – A Série teve sua première mundial na mostra Generation 14plus do Festival de Berlim de 2025 e amplia o universo iniciado por Caru Alves de Souza no longa-metragem De Menor, lançado em 2013.
O elenco reúne Benjamín, Giulia Del Bel, Grace Orsato, Luan Carvalho, Taciana Bastos, William Costa e Carlota Joaquina, além das participações de Rita Batata, Giovanni Gallo e Shabazz.
A estreia acontece no Canal Brasil entre os dias 25 e 27 de junho, sempre às 20h30, com exibição de dois episódios por noite.
Sem oferecer respostas prontas, a série aposta no desconforto, na reflexão e no questionamento para discutir temas urgentes de uma sociedade marcada por desigualdades raciais, sociais e institucionais.
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