#Podcast: ‘Da Rua Pra Rua’ entrevista Sabota – Bocada Forte

#Podcast: ‘Da Rua Pra Rua’ entrevista Sabota – Bocada Forte

O podcast “Da Rua Pra Rua”, uma iniciativa do selo cultural Hip Hop Ciclo Eterno, sediado na Chapada Diamantina, Bahia, dedicou seu quarto episódio a uma entrevista exclusiva com o b-boy Sabota. Nascido na ilha de Itaparica e criado nas ruas do Nordeste de Amaralina, Salvador, Sabota é um veterano da cultura hip-hop, com profunda vivência no breaking e um compromisso inabalável com ações comunitárias e culturais. A entrevista mergulha em sua trajetória, influências, desafios e a visão sobre o papel do hip-hop como ferramenta de resistência e autoconhecimento. O projeto é capitaneado por Infoguerra MC.

Sabota relata que seu primeiro contato com o break foi mediado por frames de dança de rua em clipes norte-americanos e comerciais de TV. No entanto, o “chamado” definitivo veio aos 13 ou 14 anos, quando, recém-chegado a Salvador, presenciou uma apresentação de break na escola. Essa experiência ativou uma memória, talvez pela similaridade com a capoeira, que ele praticava desde os 9 ou 10 anos na ilha de Itaparica. A capoeira, com sua ginga e corporalidade, já havia preparado o terreno para a fluidez e a expressão que encontraria no breaking.

A mudança para o Nordeste de Amaralina o levou a um treino da crew Estilo Brasil, da qual faz parte até hoje como segunda geração. Ali, a dança ganhou fundamentação, amarrando informações que antes estavam soltas em sua cabeça. A atitude, o visual estético e o movimento dos b-boys o cativaram profundamente. Sabota destaca que o break foi uma forma de externar a sonoridade que existia dentro dele, dando corpo ao som, ao barulho e à batida.

Suas primeiras influências foram os membros da Estilo Brasil Crew, que o ensinaram e o inspiraram. Além disso, a efervescência do hip-hop em seu bairro por volta de 2006 e 2007, com os quatro elementos pulsantes, o impulsionou a querer fazer parte daquele movimento. A independência dos b-boys que passavam para os bailes black e festas do Nordeste de Amaralina o influenciou a buscar sua própria liberdade e expressão.

A entrevista ressalta a importância da disciplina, autoconfiança e autoestima no breaking. Sabota aprendeu com os veteranos da Estilo Brasil Crew que a dança, por ser difícil de aprender e manter, exige dedicação. Essa disciplina, que ele leva para a vida, o ensinou a romper barreiras do impossível e a não desistir. O break, para ele, é uma lição de que o impossível pode ser alcançado, exigindo força de vontade, foco e persistência.

A entrada nas batalhas, para Sabota, foi um processo quase instintivo. Ele não se lembra da primeira vez que entrou em uma cypher, pois a sensação de ocupar o centro da roda já era familiar devido à capoeira. Para ele, é como se tivesse nascido fazendo aquilo, e a adrenalina e o frio na barriga são os mesmos até hoje, a cada nova batalha.

Sabota, um “viciado em música”, explica que sua base, flow e leitura de tempo foram construídos a partir de sua vivência familiar musical, da capoeira e da escuta de música negra norte-americana e MPB brasileira. Ele destaca a importância de dançar “em cima” da música, não apenas com movimentos aleatórios, mas com uma profunda conexão com a sonoridade. Músicas instrumentais, em particular, são um terreno fértil para sua expressão.

A vivência nas ruas dos guetos soteropolitanos, embora marcada por injustiças e violências, trouxe a Sabota uma maturidade crucial. O break, nesse contexto, não foi apenas uma dança, mas uma “boia em uma tempestade”, a única coisa a que ele podia se agarrar para não afundar. Essa realidade o fez valorizar a dança como um caminho e uma forma de pensar, diferente do destino imposto aos jovens periféricos.

A cultura hip-hop, para Sabota, é um conglomerado de culturas populares oriundas da África, que se espalharam pelo mundo. Ele a vê como uma sabedoria ancestral e popular, que, embora seja interessante para o sistema acadêmico beber e aprender, muitas vezes não oferece oportunidades e valorização aos artistas periféricos. Essa falta de reconhecimento e a subestimação da bagagem e experiência dos artistas de rua são grandes dificuldades enfrentadas.

Sabota percebeu rapidamente que o break não era apenas movimentos, mas um “enfrentamento” aos padrões e ao destino imposto. É um discurso de resistência corporal, onde o b-boy constrói a história de sua vivência, dificuldades e prazeres através da dança. O hip-hop, para ele, é uma revolta contra um sistema que impõe um destino capitalista, transformando o indivíduo em uma peça funcional. A cultura o fez pensar e questionar, indo além da “educação bancária” recebida nas escolas públicas.

A cultura hip-hop, especialmente o breaking, instiga ao estudo dos fundamentos, movimentos, nomes e histórias. É uma cultura oral, transmitida através de workshops e conversas com os mais velhos. Essa busca pelo passado, pelo “Sancofa”, enriquece a dança e a vida, levando a buscar referências dentro e fora do hip-hop.

Sabota, com humildade, não se vê como alguém que deixa um grande legado para o hip-hop nacional, mas sim como um “grão de areia” que busca influenciar outras pessoas a encontrar no break e no hip-hop o autoconhecimento.

Seu recado para os b-boys e b-girls que estão começando é: não desistam, amem a dança de forma saudável, não se cobrem excessivamente e entendam que a competição não é o único parâmetro. O break é autoconhecimento, não entretenimento para agradar jurados ou buscar reconhecimento externo. É sobre se reconhecer como indivíduo. Ele enfatiza a importância de ser honesto consigo mesmo e com os outros, de buscar sempre a evolução e de usar os fundamentos da forma correta, sem se encaixar em caixinhas.

Sabota ressalta o respeito aos mais velhos e a quem veio antes, reconhecendo o legado daqueles que abriram caminho para a cultura. E, acima de tudo, o breaking é “fome”, uma paixão que o inspira a continuar, junto com a urgência de existir e resistir. O hip-hop e o breaking foram seu “primeiro amor”, uma sensação profunda que o impulsiona a seguir em frente.

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