A Casa do Graffiti, localizada no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, abriga até o dia 26 de abril “Memórias Que Se Carregam no Corpo” , exposição coletiva que reúne obras de 32 artistas mulheres e tenta traçar a presença feminina na arte de rua de São Paulo. Todas as telas expostas estão à venda!

O convite partiu da própria Casa do Graffiti, espaço que é totalmente voltado para esse elemento do Hip-Hop, a coletiva ‘Graffiti Mulher Cultura de Rua’, para articular essa presença feminina no espaço. Com o convite aceito as integrantes da coletiva organizaram como se daria essa exposição “A gente entendeu que não dava para simplesmente chamar as meninas para expor. Era preciso ter um tema que conectasse todas”, explica Crica, artista que é integrante da coletiva.

Foi nesse contexto que surgiu o conceito da exposição refletindo experiências vividas dentro e fora da arte — marcadas por afetos, violências, resistência e identidade. “Às vezes o Graffiti é bruto com a gente, a rua é cruel, as pessoas testam a gente, tanto do nosso meio, quanto as pessoas aleatoriamente passando na rua. Quantas de nós já vivemos essa situação? – É você mesma que tá pintando?”, declara Crica. A partir disso, cada artista traduz o tema à sua maneira: algumas abordam dor, outras amor, ancestralidade ou trajetórias pessoais.
“Muitas das artistas são lésbicas, são negras, são de periferia e a gente queria trazer cada vez mais a diversidade de mulheres dentro da exposição. Então, entre nós a gente também decidiu pensar nesses elementos, quando você vai vendo a exposição como um todo, tem técnicas diferentes, então cada uma também tem um jeito diferente de se comunicar através das artes visuais”, acresenta a artista.

Esse diálogo entre trajetórias também revela uma característica fundamental do Graffiti Mulher Cultura de Rua: sua origem como rede de apoio. Criado em 2012, inicialmente em um grupo de internet, o movimento surgiu da necessidade de conexão entre artistas que, até então, encontravam pouca visibilidade em espaços mistos. “As mulheres postavam seus trabalhos e não tinham retorno. Enquanto isso, estavam sempre fortalecendo os rolês dos homens”, lembram. A partir desse incômodo, formou-se uma rede que hoje conecta artistas de diferentes regiões do Brasil.

A exposição também evidencia desafios estruturais. A produção artística feminina ainda enfrenta limitações de espaço, reconhecimento e continuidade. Um dos pontos levantados pelas artistas é a concentração de convites no mês de março. “A gente só é lembrada no mês da mulher. Mas somos mulheres o ano inteiro”, afirmam. A própria mostra propõe uma ruptura simbólica com essa lógica ao se estender até o fim de abril, ampliando sua presença no calendário cultural.

Dentro da Casa do Graffiti, essa discussão também se reflete no cotidiano. Mesmo sendo a única mulher na equipe da Casa, a artista Cat, afirma que busca garantir a presença feminina nas programações ao longo do ano. “Eu sempre me posicionei para incluir mulheres nas exposições. Isso é algo que quero manter aqui dentro”, destaca.
As organizadoras já pensam em novas edições, possíveis itinerâncias e até na inscrição do projeto em editais e instituições culturais. “A gente amadureceu muito. Agora é transformar isso também em portfólio e ampliar as oportunidades”, acrescenta a artista Lady Red, também integrante do coletivo Graffiti Mulher.

Nesse sentido, a mostra se consolida como um gesto político e cultural. Ao ocupar espaços, construir memória e fortalecer redes, ela contribui para uma narrativa mais diversa da arte urbana paulistana — uma narrativa onde as mulheres não apenas estão presentes, mas são protagonistas.
Texto e fotos por Érica Bastos, tudo feito no dia da abertura da exposição (29/03), com apresentação da Lady Red, pocket show do Odisseia das Flores, dança com a Crew Xeque Mate Hip-Hop e a discotecagem das DJs Iasmin e Mari Mats.
Artistas participantes: ADZ One (@adzonemestres), Amanda Pankill (@amandapankill), Auá Mendes (@aua__art), Babi Lopes (@babi.lops), Branca (@brancasp_), Bruna Serifa (@serifa_), Caluz (@caluzcaluz), Carolina Itzá (@carolinaitza), Clau Black (@claublaack), F. Öberg (@safosapa), Fênix Sthefany (@fenixartivista), Ishê (@isheobvias), Jae (@todacortemseuvalor), Jamaikah (@jamaikahsantarem). Kari (@7kari). Katia Lombardo (@katialombardo), Laís da Lama (@laisdalama), Lady Red (@raisa_ladyred), Lu Gancho (@luganch0), Mari Monteiro (@marimonteiro.art), Mariana Calle (@mrncalle), Marisa Soou (@soooshaay), Mota (@mota.morfose), Naturaleza (@atelienaturaleza), Nenesurreal (@surrealnene), Quel (@arteemmemorias), Seleste (@darahgallvao), Simone Siss (@simonesiss), V Nuvem (@nuvemv), Videira (@eu_vid), Wall (@tipowall) e Zeb (@ehdificil).
Curadoria e comunicação
Crica Monteiro (@crica.monteiro)
Ste Fany Lima (@ste_fanylimma)
Lu Gancho
Caluz
Raisa Lady Red
Local – Casa do Graffiti – Avenida Cocá, 384 – Vila Curuçá – São Paulo
Data – de 29 de março a 26 de abril de 2026
Entrada gratuita
, https://www.bocadaforte.com.br/materias/memorias-que-se-carregam-no-corpo-a-presenca-feminina-na-arte-de-rua