O podcast “Da Rua Pra Rua”, uma iniciativa do Selo Cultural Hip-Hop Ciclo Eterno, com apresentação de Infoguerra MC, emerge das zonas abandonadas da Chapada Diamantina, no interior da Bahia, com a missão de desvendar e debater os fundamentos ancestrais que entrelaçam as raízes da cultura hip-hop, as ações comunitárias e as vivências autênticas de mentes que persistem ativas e combativas, transcendendo os algoritmos. Em um de seus episódios, o podcast se aprofunda na realidade periférica de Morro do Chapéu, apresentando a experiência e a perspectiva de Big Black, um dos mais proeminentes MCs da Chapada Diamantina e um notável representante da cultura hip-hop regional e nacional.
Big Black, em sua trajetória, tem sido um defensor incansável da importância do rap no contexto educacional, visando garantir representatividade, autoestima e conhecimento para a população negra. Ele também denuncia as adversidades enfrentadas por um homem negro e artista independente no interior da Bahia, como a escassez de recursos, o preconceito institucional, o racismo e os boicotes seletivos que marginalizam a cultura hip-hop. No interior baiano, especialmente em cidades distantes da capital e fora dos fluxos culturais, o esforço é quadruplicado e a articulação cultural se apresenta como um desafio diário. Nesse cenário, Big Black personifica a sobrevivência e a resistência, provando que a Chapada não é apenas uma paisagem turística, mas um território de luta e resistência cultural.
O envolvimento de Big Black com o hip-hop começou de forma quase involuntária na infância, influenciado pelo Racionais MC’s, que dialogava diretamente com a realidade de povos negros periféricos. A música “Capítulo 4 Versículo 3” foi a primeira que ele aprendeu a cantar trechos. Na adolescência, ao aprofundar-se nas mensagens do rap, despertou sua identidade e um lado combativo, impulsionado pela realidade de famílias negras e mães solo. Além do rap, o rock e o reggae também foram importantes em sua formação, buscando um equilíbrio entre amor e ódio. Em 2014, um encontro com um amigo de São Paulo o introduziu à improvisação de rimas sobre beats, desbloqueando sua capacidade de rimar e levando-o a escrever sua primeira letra em três dias.
Entre suas inspirações, Big Black destaca o Racionais, o grupo Expressão Ativa, com a música “Um Poeta Triste”, e o rap do Distrito Federal, incluindo Tribo da Periferia, Pacificadores e Três Um Só. Ele também menciona Álibi e DJ Jamaica. Essas influências o motivaram a criar e a usar a música para fazer sua mensagem circular, mesmo diante das dificuldades de um cenário underground. Ele enfatiza a importância de se manter firme e de não parar, considerando isso uma vitória em meio à complexidade de fazer uma mensagem repercutir sem os recursos ideais.
Big Black também reflete sobre a importância educacional das ações comunitárias com elementos do hip-hop, destacando que o rap cumpre um papel fundamental ao dialogar com a linguagem e cultura de pessoas negras, que representam mais da metade da população brasileira. Ele acredita que o rap e o hip-hop oferecem conhecimento e uma visão cotidiana das mazelas enfrentadas nas comunidades, estimulando crianças, adolescentes e jovens a se expressarem e a encontrarem um espaço onde suas vozes são ouvidas e suas experiências são reconhecidas.
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