Levantamento mostra que racismo e misoginia se cruzam no ambiente virtual, tornando mulheres negras o grupo mais vulnerável a ataques, ameaças e campanhas de intimidação
A violência digital tem se consolidado como um dos principais desafios para a segurança e a participação de mulheres no ambiente online. No Brasil, esse cenário é ainda mais grave para as mulheres negras, que concentram os maiores índices de ataques motivados pela combinação entre racismo e misoginia, segundo um estudo divulgado pela Fast Company Brasil.
A publicação destaca que as agressões virtuais vão muito além de comentários ofensivos. Entre as práticas mais recorrentes estão ameaças de morte e estupro, perseguição nas redes sociais, divulgação não autorizada de informações pessoais, campanhas coordenadas de desinformação, assédio, discursos de ódio e tentativas de silenciamento de mulheres que ocupam espaços de liderança, influência ou debate público.

De acordo com especialistas do estudo, as plataformas digitais acabam reproduzindo desigualdades já presentes na sociedade. Nesse contexto, mulheres negras enfrentam uma dupla vulnerabilidade por serem alvo simultaneamente de ataques racistas e machistas, o que amplia os impactos psicológicos, profissionais e sociais da violência online.
O problema também aparece em levantamentos nacionais. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher, mostrou que cerca de 8,8 milhões de brasileiras, o equivalente a uma em cada dez mulheres com 16 anos ou mais, sofreram algum tipo de violência digital em um período de 12 meses. As ocorrências mais frequentes envolvem mensagens ofensivas, insultos, humilhações e ameaças recorrentes.
Nos últimos anos, o crescimento das denúncias também evidencia o avanço desse tipo de crime. Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres mostram que os registros de violência digital recebidos pelo canal Ligue 180 aumentaram 188,6% entre os cinco primeiros meses de 2025 e o mesmo período de 2026. Segundo o governo federal, parte desse crescimento reflete tanto a ampliação do fenômeno quanto o fortalecimento dos canais de denúncia.
Especialistas alertam que a violência digital tem consequências que vão além do ambiente virtual. O assédio constante pode provocar ansiedade, depressão, abandono de redes sociais, autocensura e até afastamento da vida pública, especialmente entre mulheres negras que atuam na política, no jornalismo, na produção de conteúdo e em outras áreas de grande exposição.
Para enfrentar o problema, pesquisadores defendem uma combinação de medidas, como maior responsabilização das plataformas digitais, aprimoramento da legislação, fortalecimento dos mecanismos de denúncia e desenvolvimento de políticas públicas voltadas à proteção das vítimas. Também apontam a necessidade de ampliar a educação digital e combater a disseminação de discursos de ódio nas redes.
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