Seguindo a trilha do rap nas ideias de Matéria Prima – Bocada Forte

Seguindo a trilha do rap nas ideias de Matéria Prima – Bocada Forte

“A palavra é muito valiosa nas várias formas de expressão periférica musical e literária, mas no meio do corre ouvir “me passa seu pix” soa como um poema”

Seria uma fuga ou uma luta? Se esquivar ou enfrentar o senso comum?

O que importa é que, sem ficar parado no tempo, o rap de Matéria Prima não foi desligado das origens do Hip-Hop. Em “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”  (Sujoground), seu parceiro Goribeatzz produz e projeta mais uma vez sua faceta instrumental para sustentar o fluxo poético e contestador do MC mineiro. De acordo com Matéria, o sol capitalista é a pressão que sofremos em busca da segurança financeira, e sob ele, alguns tem sombra e água fresca, outros tão no asfalto quente bebendo barro.

Sobre vivências, conflitos e contradições, o artista segue: “Eu me interesso em contribuir de alguma forma, pois já entendi que é uma espécie de missão. Eu já tentei me importar com o mercado, mas agora é fazer com que o mercado se importe com você, né? Eu falo na faixa Celoko: ‘Se liga no toque, te preparam pro mercado, mas é pra prateleira ou estoque?’ Então temos várias perspectivas, mas geralmente o que o mercado espera é que você venda algo junto com sua música: seu estilo de vida, sua imagem, sua intimidade. E eu sempre acho que a música vem em primeiro lugar, diferente das estranhas lógicas de consumo”,diz Matéria Prima.

Com uma vasta discografia e muita história para contar, Matéria Prima traz também neste novo trabalho as participações de Cravinhos, Dj Novset, Cizco e Ogoin. Para o MC, em seus versos está a coragem de escrever sem medo, com vontade de ser original, tendo como exemplo a caminhada de alguns artistas que melhoram como vinho, apesar da idade e das tendências.

O videoclipe da música “Esperanças” abre a correria audiovisual para divulgar sua lírica.

Em meio ao cenário que apresenta novos artistas, novas estéticas e velhas manipulações, o MC fala sobre as tensões que também direcionam sua escrita. “Eu costumo dizer que a gente vive numa ditadura do contexto, em que um disco tem que ter um contexto pra ser validado, e muita coisa boa acaba na gaveta por não conseguir criar uma narrativa, ou muita coisa ruim se destaca por causa dessa regra criada.”

Nas rimas que habitam seu mais recente trabalho, ao deslocar o foco do dinheiro para a ideia, a ancestralidade e a continuidade, Matéria afirma que a troca é a mais valiosa para as pessoas se situarem na confusão que é o mundo hoje em dia, em que plantar não significa colher de fato. “Às vezes, a colheita nem é nossa. Vem de outras gerações, por isso respeitar quem veio antes é tão importante…Quando baixamos a guarda, apesar das experiências serem pessoais, existem algumas vivências que podem espelhar uma fase coletiva.”

No traçado desenhado por Goribeatzz, Matéria Prima tenta dar amplitude pra coisas pequenas e tirar algo do cotidiano que passa despercebido nelas. Nesse furacão informacional que gera ansiedade, o artista reflete a inspiração e seus medos nos dias atuais. “Eu lancei esse disco no tempo que lancei por acompanhar as notícias sobre as guerras e todo o caos que acontece ao redor, e achei que teria que lançar esse trampo antes que nada mais importasse além do cataclismo.”

Escrever, criar o flow, gravar no beat. Estaria tudo OK para fazer parte do disco “Fazendo o Melhor Que Eu Posso”? O tempo respondeu como uma voz que se alternava entre gritos e sussurros na mente do MC: nem tudo que soa “imperfeito” pra você tem que ser guardado. E ele não guardou.

Em uma cena de cobrança constante, Matéria Pirma marca posição para mostrar o que não é e o que não quer para “fazer o melhor que pode”: “Na era da performance, da otimização, de ter que produzir de forma industrial, precisamos reconhecer nosso limite ao invés de se transformar numa máquina, certos de que a recompensa virá, e isso é uma fábrica de fazer frustrados, e o mundo te força a se comparar com outros por meio das mídias sociais, e nisso a gente é arrastado para um círculo vicioso de miséria humana sorridente”. Ouça o disco abaixo e enenda melhor:

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