pesquisadora leva ao TEDxAmazônia estudo inédito

pesquisadora leva ao TEDxAmazônia estudo inédito

Marina Marçal do Nascimento uniu, em poucos dias, dois marcos da própria trajetória: a defesa de doutorado na UFF sobre a exclusão racial nas decisões sobre o clima e uma participação como palestrante no TEDxAmazônia Salon – Mulheres pelo Clima, no Pará

Quem enfrenta enchente para chegar em casa, espera horas em pé num ônibus lotado debaixo de calor extremo ou vê a seca avançar sobre a roça já conhece, na prática, os efeitos da crise climática. Mas é justamente essa população — majoritariamente negra, indígena, quilombola e de comunidades tradicionais — que segue praticamente fora das mesas onde se decide o que fazer a respeito. Essa é uma das principais conclusões da tese de doutorado da advogada, pesquisadora e ativista Marina Marçal do Nascimento, defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF).

No último dia 11, Marina levou esse debate ao palco do TEDxAmazônia Salon – Mulheres pelo Clima, realizado no Parque de Bioeconomia – Laboratório Vivo, no Pará, ao lado de outras mulheres que constroem caminhos para a sustentabilidade, a justiça climática e o fortalecimento dos territórios amazônicos.

Foto: Divulgação/ Lorena Fadul

Quem mais sofre, menos decide

O trabalho de Marina, intitulado “Políticas Climáticas Inclusivas e Governança Climática Justa: Estratégias de Combate ao Racismo Ambiental e Promoção da Justiça Climática no Brasil”, reúne dados inéditos sobre representatividade racial nos espaços de decisão climática e mapeia as barreiras estruturais que mantêm essas populações fora dos fóruns nacionais e internacionais — inclusive das próprias COPs, as conferências do clima da ONU.

Os números levantados pela pesquisa ilustram bem esse apagamento. Na delegação brasileira, a presença de pessoas quilombolas nas COPs saiu de 1 pessoa em Madri (COP25, 2019) para 4 em Glasgow (COP26, 2021), chegou a 11 em Sherm El Sheik e Dubai (COP27 e COP28, 2022 e 2023) e voltou a cair para 4 em Baku (COP29, 2024) e em Belém (COP30,2025) — mesmo com a conferência sediada, pela primeira vez, na Amazônia brasileira.

Levantamentos recentes também mostram que pessoas negras seguem sendo minoria nas delegações oficiais do país nas negociações climáticas, reforçando o argumento central da tese: o perfil de quem fala em nome do Brasil no debate climático ainda está longe de refletir o perfil racial da população mais afetada por ele.

Dos bastidores das COPs à pesquisa acadêmica

Antes de se debruçar sobre os dados como pesquisadora, Marina viveu essa realidade por dentro. Ela acompanhou de perto três edições da conferência do clima da ONU — COP26,COP27 e COP28 —, atuando na articulação de políticas climáticas pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) e pela organização internacional C40 Cities. Na COP27, mediou agendas entre a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o sociólogo Robert Bullard, referência mundial em justiça ambiental, além de articular diálogos com a vice-presidenta da Colômbia, Francia Márquez.

Foi essa vivência nos bastidores da diplomacia climática que a levou, em 2022, a um doutorado-sanduíche como pesquisadora visitante na Columbia Law School, sob orientação do professor Jedediah Purdy, um dos principais nomes do direito ambiental nos Estados Unidos, com apoio da Open Society Foundation. A tese foi defendida com banca internacional formada pelos professores Robert Bullard (Texas Southern University), Kendall Thomas e Sheila Foster (ambos da Columbia University), além do orientador, professor Wilson Madeira Filho, da UFF.

Do dado ao palco: a tese chega ao TEDxAmazônia

No TEDxAmazônia Salon – Mulheres pelo Clima, Marina dividiu o palco com outras lideranças femininas que atuam na linha de frente da sustentabilidade e da justiça climática nos territórios amazônicos. Em sua fala, ela conectou os dados da tese a um ponto central da pesquisa: comunidades negras, quilombolas, indígenas e tradicionais não são apenas as mais impactadas pela crise climática — são também guardiãs de saberes ancestrais que já apontam caminhos de adaptação e mitigação, da conservação de sementes crioulas ao uso de plantas como própolis, capim-santo, tomilho e orégano na medicina natural e no cuidado com a terra.

Para Marina, reconhecer e financiar esses saberes é parte da resposta à crise climática, e não apenas uma pauta de inclusão social.

“Uma governança climática que não representa o perfil racial e de gênero do Brasil não tem legitimidade para falar em nome do país e não produzirá as melhores soluções”, diz a pesquisadora.

O que precisa mudar

Entre as propostas apresentadas na tese e reforçadas na palestra, estão:

  • Inclusão de critérios raciais na governança climática;
  • Ampliação da participação de comunidades vulnerabilizadas nos espaços de decisão;
  • Financiamento direto para organizações de base lideradas por essas comunidades;
  • Acesso mais equitativo a espaços internacionais de decisão, como as COPs.

Avanços recentes, desafios que continuam

A pesquisa de Marina chega num momento em que mulheres negras e indígenas ocupam postos de comando inéditos no governo federal — caso de Anielle Franco, à frente do Ministério da Igualdade Racial, Macaé Evaristo, no Ministério dos Direitos Humanos, e Sonia Guajajara, no Ministério dos Povos Indígenas, além de Marina Silva no Meio Ambiente e Margareth Menezes na Cultura. Para a pesquisadora, esses avanços são importantes, masainda não se traduziram, na mesma proporção, em representatividade racial nas delegações técnicas, nas equipes de negociação e nos espaços onde as políticas climáticas são, de fato, desenhadas, o que reforça a urgência das mudanças propostas em sua tese.

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Quem é Marina Marçal

Mulher negra criada no subúrbio do Rio de Janeiro, filha de professores da rede pública e neta de trabalhadora doméstica, Marina ingressou na UFF e se formou advogada em 2013. Realizou sua primeira pesquisa de campo em 2012, ainda aos 23 anos, junto a quilombolas e ribeirinhos no Pará — uma vivência que marcaria toda a sua trajetória acadêmica e profissional. Ao longo do doutorado, enfrentou quatro diagnósticos de covid-19, o diagnóstico de uma doença autoimune e seis mudanças de endereço, experiências que tornaram ainda mais visceral sua convicção de que não existe política climática justa sem cuidado com as pessoas.

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