Fyabomb transforma selo do interior paulista em rádio dedicada à produção independente – Bocada Forte

Fyabomb transforma selo do interior paulista em rádio dedicada à produção independente – Bocada Forte

A Rádio Fyabomb surge no interior de São Paulo como um projeto de comunicação independente voltado à difusão do rap underground, reggae e outras produções fora do circuito comercial. Criada a partir da trajetória da Fyabomb Records, a iniciativa aposta na autonomia editorial, na curadoria musical e na construção de redes entre artistas, selos e coletivos, com foco na circulação de música independente e na formação de público fora da lógica das plataformas de streaming. Ouça aqui e confira as ideias dos manos Márcio Dabliueme e Pedro Kamau, os organizadores dessa parada.

BF: Como nasce a Rádio Fyabomb e quais lacunas no cenário da música independente e do rap underground vocês identificaram que motivaram a criação do projeto?
Fyabomb: A Fyabomb Records atua desde 2006 como selo fonográfico e produtora independente, gravando e produzindo centenas de grupos e projetos aqui do interior de São Paulo. Ao longo desse tempo produzimos muitos artistas de todo o Brasil e até de fora do país, como artistas da Colômbia, Quênia, Jamaica e Austrália. Sempre achamos muito chato esse lance de plataformas digitais, com muita burocracia e muita coisa de “gravadora dos anos 90”. Viemos do underground e sentimos a necessidade de ter o nosso próprio veículo de comunicação. Eu trabalhei em rádios piratas e comunitárias desde os meus 16 anos, cerca de cinco anos da minha vida foram dedicados à sonoplastia para locutores aqui da minha cidade. Então unimos o “inútil ao desagradável” (risos) e, já que estávamos lançando e produzindo artistas underground, resolvemos fazer a rádio para oferecer o pacote completo ao nosso público. Tudo é feito aqui: pré-produção, produção, beats, gravação, mixagem, masterização, fotos, arte de capa e, posteriormente, a difusão desses projetos.

BF: A proposta de atuar fora da lógica dos algoritmos e do mercado digital é central na Fyabomb. Como vocês constroem uma programação que mantenha autonomia editorial e, ao mesmo tempo, alcance público em um ambiente dominado por plataformas de streaming?
Fyabomb: É nichado mesmo. A gente não facilita o acesso, para a pessoa encontrar tem que procurar, é tipo garimpo mesmo. A ideia é atrair o público fiel, aqueles que amam música, amam arte e consomem de verdade. Queremos nos comunicar com a galera fiel do underground, aqueles que levantam do sofá para ir a um show, a um espetáculo teatral, que colam nos eventos de rua. Para nós não faz sentido participar das plataformas de streaming, sempre estivemos à margem, inclusive da cultura hip hop do rap convencional de São Paulo. Somos de Itapetininga, a galera de São Paulo não tem empatia e, na real, eu não ligo para isso. Nunca dependi do rap paulistano para fazer o meu, sempre tomei porta fechada dessa galera. A Fyabomb é contracultura, não faz sentido seguir a cartilha. Somos os “produtores de CDR e CDs piratas dos anos 90”, dizem que é rebeldia, mas com causa. É muito triste ver o cara se intitular underground e ter o som no Spotify, que financia guerras e outras atrocidades.

BF: Que leitura vocês fazem do atual cenário das rádios online e das plataformas musicais no Brasil, especialmente em relação à circulação do rap underground, do reggae e das produções independentes?
Fyabomb: Desde setembro de 2025 estou estudando muito sobre radiodifusão e web rádios e, acredite, existem milhares de rádios web e web TVs independentes espalhadas pelo Brasil com muita coisa boa. Acredito que esse é o caminho, cada artista deve ter seu endereço na web. É deixar de gastar com supérfluos e comprar o próprio streaming, montar o próprio site. Se quiser ouvir o Dabliueme ou artistas da Fyabomb, é só entrar no site da Fyabomb, tudo gratuito, sem firulas e sem enganação. Os undergrounds e independentes levam a cultura nas costas, esses artistas de setlist de Lollapalooza são atores e atrizes, aquilo não existe.

BF: Como funciona o processo de curadoria da Rádio Fyabomb e quais critérios são utilizados para selecionar artistas, programas e conteúdos que entram na frequência?
Fyabomb: Eu pesquiso música há 30 anos, caçando samples e loops. Cresci em um ambiente com muitos discos dos meus avós e dos meus pais, e isso me ajuda até hoje. Também atuo como discotecário, seletor e curador de músicas para eventos culturais, sempre pesquisando novos artistas. Todas as músicas que tocam na Rádio Fyabomb são ouvidas e digeridas. Jamais vamos tocar som que não tenha propósito. Todas as faixas carregam mensagens e são de artistas operários da música. A rádio foi inaugurada no dia 10 de março de 2026 e agora, em abril, estreia o meu programa semanal chamado Boa Viagem, com 100% de sons independentes. Também teremos a estreia do podcast Ecoando Vozes, da Luna Formagi. Até o final do ano, o plano é ter 100% da programação ao vivo com locutores e locutoras parceiros de todo o país. São 30 anos de rap, dá para construir uma rede de contatos forte.

BF: Existe uma preocupação em construir um acervo sonoro e documental da música independente a partir da programação da rádio? A Fyabomb pensa em si também como um espaço de memória cultural?
Fyabomb: Sim. Eu gosto muito desse lance do colecionismo e do acervo. Tivemos que vender nossa coleção de 8 mil CDs e vinis para sobreviver, mas vamos continuar nosso acervo em MP3 e WAV e criar esse arquivo inicialmente para uso próprio, nas discotecagens e na rádio. Ouvimos muita música fora da internet e invejamos o acervo do Bocada Forte (risos). Um dia vamos sequestrar esses HDs e prateleiras de vocês.

BF: A experiência da Fyabomb dialoga com rádios livres, sound systems e comunicação comunitária. Como essa referência influencia o posicionamento político e cultural do projeto?
Fyabomb: A Fyabomb fica na Vila Mazzei, em Itapetininga, um dos últimos bairros da cidade e com alto índice de vulnerabilidade social. Dividimos nosso cotidiano entre sobreviver, morar e fazer arte e cultura. Dialogamos com artistas independentes e movimentos sociais da cidade e damos voz não só a músicos e selos independentes, mas também a empreendedores, artesãos e produtores da economia criativa. Trabalhamos com barganha, permuta e publicidade colaborativa. O cara anuncia o produto, paga o que pode e ajuda a rádio a sobreviver.

BF: Quais são os principais desafios estruturais para manter uma rádio independente ativa de forma contínua, especialmente em termos de financiamento, equipe, tecnologia e sustentabilidade?
Fyabomb: A rádio é gerida por mim, Márcio Dabliueme, e pelo meu filho Pedro Kamau, que hoje, com 17 anos, trabalha na Fyabomb e também na produção da banda Dabliueme e Original Fyaband. A maior dificuldade é financeira. Cada dia é um dia, é sobrevivência. Já deixei de pagar conta de água para pagar o streaming da rádio. O único combinado entre a equipe é acordar às 8 da manhã e entrar no estúdio para produzir. Às vezes é assim: tomara que venda um beat hoje para pagar o site da rádio. Fazemos arte sem grana desde 1997.

BF: Como vocês pensam a formação de público para uma rádio que trabalha com música fora do circuito comercial e com linguagens culturais específicas?
Fyabomb: Existem muitas pessoas que se identificam com a nossa linguagem mais crua, direta e antissistema. A rádio começou em 2026, mas desde 2006 já produzimos artistas e, antes disso, eu já atuava como selo com outro nome. Fui influenciado pelo Xis e pelo KL Jay com a 4P, lendo matérias na revista Rap Brasil e no Bocada Forte. Isso ajudou a construir nossa rede de contatos desde 1997. Hoje temos público no país todo.

BF: A Fyabomb pretende atuar também como plataforma de articulação entre DJs, produtores, coletivos e artistas independentes? Existe um projeto de rede cultural em torno da rádio?
Fyabomb: Sim. A Fyabomb é ativismo artístico e a ideia é conectar artistas independentes do sul com selos independentes do norte. Eu mesmo lancei o disco Aqui Jazz pelo selo mineiro Strads e deu muito certo. Essa troca entre artista e selo fortalece os dois lados. É colaboração, é ponte, é intercâmbio, é troca de ideia real.

BF: Em um momento em que a música é cada vez mais mediada por dados e métricas, qual é o papel de uma rádio como a Fyabomb na preservação da autonomia artística e da diversidade sonora?
Fyabomb: Quando a música é boa e o artista é verdadeiro, a gente só amplifica a proposta. A ideia é amplificar o que há de bom, porque o que há de ruim é empurrado todos os dias pela indústria, pelos podcasts rasos e pelas páginas de rap nas redes sociais. Para nós, música nunca foi competição. Esse “game” que tanto falam não existe.

BF: Quais são os planos futuros da Rádio Fyabomb em termos de expansão de conteúdo, produção de programas, eventos, parcerias e fortalecimento da frequência cultural no Brasil e fora dele?
Fyabomb: Meu sonho é transformar a rádio em FM. Estou há 30 anos nos palcos e hoje prefiro fazer o som de casa para quem realmente se importa com cultura. Recentemente a rádio bateu 145 ouvintes ao mesmo tempo, e isso já é muito significativo. A ideia é continuar criando e difundindo música independente do Brasil e do mundo. Vamos retomar os encontros presenciais na Fyabomb, trazendo artistas para tocar no quintal cultural e fortalecendo os intercâmbios. Qualquer artista pode enviar música, mas ela precisa passar pela curadoria. Tocamos MPB lado B, samba, jazz, bossa, rap, reggae, ragga, dub e experimental, com 90% de independentes.

Aproveitando, o Bocada Forte sempre foi referência máxima para nós. Acompanho desde o primeiro dia e é uma honra conceder essa entrevista. Muito obrigado por existir Bocada Forte.

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