O que te encanta, hein?
Salve povaria, como estamos? Aqui é o Emecê e me dispus a desenrolar um pouco sobre nosso contemporâneo, ou pelo menos, o que se lança em termos de música e que passa batido por conta da distração programada. Numa era de algoritmos, scroll rolling, FOMO (medo de ficar de fora) e os aspectos correlatos que não cabem nesse texto, muita coisa se perde, apesar da urgência em captar tudo, mesmo sendo impossível tal feito.
Pois bem, o desenrolo aqui é pra falar sobre o EP “Encantamento”, parceria do DJ Cortecertu com o FLVXL (Flávio XL). Conheço o manuseio dos dois faz tempo e sei o quanto a recepção não é generosa, com as formatações e manuais para alcances etéreos.
Sentidos, como posso dizer, destoantes do comum senso do tudo bem, causa mais estranheza do que em outros tempos.
É como se o polo positivo fosse o único possível e aí algo que bagunce essa sensação é automaticamente ignorado. Uma sensação dominante em que gestos positivos se tornam prisões por excelência em que o ritmo é automatizado para apenas produzir dopamina em excesso para amenizar o cansaço do esforço individual incessante em busca do sucesso.
E se narrativas que lidam as espirais, oscilações, rugosidades, diferenças e obliterações fizessem parte da sua percepção de forma honesta? E se o Hip-Hop, o Rap, tiver pessoas com essa disponibilidade tanto rítmica quanto lírica, você prestaria atenção, de fato?
Talvez a minha interpretação sobre o Encantamento emanado na obra passe por aí e o esforço para além da audição do EP, é pensar sobre o porquê dele ter sido feito nos nossos tempos. Qual seria a motivação dos malungos Cortecertu e FlVXL?
Fiz uma entrevista breve com os dois e compartilho com quem realmente se ligar que outras propostas, além de possíveis, são necessárias.
Obs: A biografia dos dois está presente na rede mundial de computadores (hahaha). Sério, procurem aí, até na IA vai se ter resposta.
No mais, leiam a entrevista e valeeeeeeeeeeeeeeeu!
Cortecertu, Qual foi a sua motivação de gravar um EP com o FLVXL?
A ideia veio desde a pandemia, mas as correrias da vida provocaram vários adiamentos. Neste ano, eu fiz alguns beats e mandei pro Flávio XL propondo uma retomada. Ele aceitou. Combinamos fazer no nosso tempo, em meio ao caos das nossas dívidas, responsabilidade e trampos paralelos.
Acredito no potêncial do flow e das letras do Flávio. Também acho que ele bota fé nos meu experimentalismo. O engraçado foi que ele mandou uma guia em cima de um beat meu que não estava na lista que mandei: “Novo jazz caótico”, um instrumental de jazz experimental, cheio de camadas e recortes que fiz para o EP UltRapassado, de 2022. O bagulho ficou foda e virou “Novo jazz caótico remix”.
Minhas produções mesclam a velha escola dos beats, com música eletrônica e rock, mas quis fazer uma parada mais Hip-Hop no EP Encantamento, usando riscos e colagens que reafirmam o que fomos e estamos sendo.
E você FLVXL, Qual foi a sua motivação de gravar um EP com o Cortecertu?
Enquanto admirador da cultura há mais de 25 anos, tem alguns personagens que fazem parte da história que não podem passar batido e se der mole, passam pela humildade e características da arte da pessoa. Um cara que é um DJ e produça de milianos e ainda por cima tem papel fundamental na comunicação e articulação do movimento há mais de duas décadas… Esse cara quando convoca é praticamente uma intimação da cultura; a construir uma fotografia sonora a partir da perspectiva de dois coroas sobreviventes em 2026 pós apocalipse. Então pra mim é uma honra ser escolhido por um cara que conhece, já ouviu e produziu tanta gente. Esse cara tende a não aceitar qualquer ideia nos seus beats e me sinto feliz de estar nesse recorte.
Cortecertu, há um traço particular nas suas produções. Como foi/é essa busca e o que você apresenta, de fato?
Velho, é aquela parada, né? Poucos ligam para a cultura alternativa e independente, ainda mais quando é feita e vivida por pessoas 40 ou 50 mais, Essa indiferença algorítmica e orgânica também é o o motor do foda-se. Faço o que quero, com os equipamentos que tenho e a experiência que tenho em todas as áreas do Hip-Hop em que atuo.
Apresento algo para poucos, não apenas pelos poucos que vão ouvir e compartilhar meus trabalhos, faço por mim. Minha vida é cheia de tretas e questões que tiram minha paz e tentam limitar meus corres no dia a dia. Não é questão de dizer “não reclamo”. Reclamo muito, xingo muito e faço música negra, política, antirracista, de resistência e periférica, mas do meu jeito. Na minha família, sou aquele tiozinho esquisito que ainda acredita na arte, na cultura e na educação.
FLVXL, a sua lírica tem preocupações bem específicas em expressar coisas que poucos mcs se preocupam. Por que a escolha e o que você apresenta, de fato?
A minha lírica, a nossa lírica, retrata o mundo pelas nossas lentes, nossas percepções e o que vivemos. Não posso responder pelos outros como justificam suas respectivas canetas e versos, mas o nosso Rap é registro. Tem uma perspectiva – que não é solitária – sobre os nossos tentando amadurecer, resistir e construir nessa troca do cuidar e aprender. Acumular perspectivas, reflexões, ver o que dá pra fazer e como ser consistente naquilo que a vida demanda, nas diferentes frentes. Não dá pra não ter estratégia, ginga e cadência é a referência.

Artistas inventivos do Hip-Hop brasileiro são recebidos ou percebidos pelo público como se deveria?
Cortecertu: Não dá, né. O que o público recebe já “está escrito nas estrelas” das mídias sociais e plataformas digitais. Artistas inventivos lutam muito nessa cena desigual. As pessoas procuram algo já consolidadado, é um direito, né. Mas quem hoje tem disposição para sair de casa e ir para um pico escutar, vivenciar e prestigiar música e artistas novos e inventivos? Quando falo novos, não falo de idade, falo da veia criativa, da mescla do passado e do presente, da escuta e da sonoridade que convida a um novo diálogo, algo além da segurança afetiva das playlists.
FLVXL: Essa pergunta deve ser respondida a partir dos xingamentos característicos do Cortecertu. Eu conheço uns mais novos curiosos e descobrindo um pouco do farto oceano da diversidade underground, mas o movimento tá em disputa há muito tempo e sem querer pagar de guardinha, algo se perdeu nessa caminhada e isso pode ser só o meu olhar de um 40+ romântico. Mas, respondendo a você, acho que não são bem recebidos, percebidos e o algoritmo não colabora e não vou elaborar sobre. Daqui só fazemos, mas temos o direito e o dever de produzirmos nossas reflexões sobre este estado da arte complicado que está o Rap atualmente.
Por que Encantamento e o que os encanta atualmente?
Cortecertu: Velho, essa parada tem um significado pra mim, que é no sentido de atração, de algo que não dá pra resistir, aí me entrego. Essa entrega não tem a ver com a porra da entrega em gestão de projetos, de trabalhos, de discruso de mídia social e marketing. É uma parada diferente, que está comigo desde quando me senti parte do Hip-Hop. Mas o XL deve ter outra definição.
FLVXL: Porque o universo está em desencanto, em que pese eu ter motivos pra sorrir e consigo sorrir. Mas o banzo tá aí, o corre é desesperançoso e o Encantamento aviva. Ainda me encanta a potencialidade da nossa cultura, promovendo conexões e possibilidades. Redes nos fortalecem e salvam, em última análise.

Entre fazer ou disputar, sem recursos, a economia de atenção, o que sobra pra nós?
Cortecertu: Não sei se chamo de sobra, chamo de outros espaços possíveis e que já existiam antes dessa intensa economia de atenção que molda o fazer. Temos os terreiros, os espaços culturais, os bares que acreditam na cena alternativa, as casas de cultura que ainda seguem vazias e precisamos fazer algo para não serem extintas por um neoliberal no poder. Temos produtores culturais que são ativistas e criam encontros de DJs e outros artistas com o foco além da competição, como o Scratch Kombat em Sorocaba. Temos iniciativas como a rádio Hip-Hop Cultura de Rua que está em fase de estruturação. A rádio Fyabomb, do estúdio do Dabliueme, abre espaço para música brasileira e para debates importantes para os nossos.
Temos pessoas que estudam a nossa cultura e lutam contra os argumentos toscos da extrema direita. Deixar de fazer não é opção para nosso grupo social historicamente excluído, se um de nós para, tem muitos outros para continuar. E parte desses que continuam seguem lembrando o valor da ancestralidade e de quem também ajudou a construir a cultura de rua num passado recente. Luta injusta, mas quando foi justa?
FLVXL: Dignidade, fazer e entender a valência do que são nossos registros. Nossos sons são atemporais e cada um sustenta seus versos: pra tia evangélica, pra irmã do terreiro, pro estudante adolescente, pro adulto correria e pro mano da boca eu tenho uma proposta de conversa contida nos versos. O diálogo com os nossos é o horizonte.
, https://www.bocadaforte.com.br/materias/ao-escritor-fabio-emece-cortecertu-e-flavio-xl-falam-sobre-o-ep-encantamento
