André Luiz Miranda fala sobre carreira em exclusiva ao NP

André Luiz Miranda fala sobre carreira em exclusiva ao NP

Em entrevista exclusiva ao NP, ator André Luiz Miranda fala sobre o sucesso de Akin em Nobreza do Amor, relembra os dois anos de escassez de trabalho e defende mais histórias negras no audiovisual brasileiro

“O público quer se ver. Nós somos maioria neste país.” A frase do ator André Luiz Miranda resume uma das principais reflexões que marcaram sua entrevista exclusiva ao Notícia Preta. Atualmente no ar como Akin, um dos protagonistas de Nobreza do Amor, o artista falou sobre a importância da representatividade negra na televisão, os desafios enfrentados ao longo da carreira, o período em que ficou sem trabalho e os projetos que deseja ver retratados nas telas brasileiras.

Para André, a novela representa um marco na dramaturgia nacional por apresentar uma África distante dos estereótipos historicamente reproduzidos no imaginário popular.

“É a primeira vez que a gente está abordando a África nessa perspectiva, trazendo outro imaginário para o público brasileiro. A gente quase não contou a nossa história, a nossa vitalidade, o nosso passado”, afirma.

Foto: Marcio Farias

Na trama, ele interpreta Akin, um guerreiro que luta pelo povo de Batanga contra o governo de Jendal, personagem vivido por Lázaro Ramos. No entanto, segundo o ator, a narrativa surpreende justamente por fugir da lógica do confronto físico.

“Quando a gente pensa em um guerreiro africano, já imagina luta, confronto, sangue. E é completamente diferente do que a gente aborda na novela. É um combate estratégico, um combate de ideias.”

O ator também revelou qual foi, até agora, a cena mais desafiadora de sua participação na novela. Segundo ele, o momento em que Akin é lançado no Poço da Serpente teve um peso especial porque marcou o início de tudo.

“Foi a primeira cena gravada do projeto. A gente ainda estava entendendo quem eram aqueles personagens, como seriam as relações e qual seria o tom da novela. O Lázaro ainda estava construindo o personagem dele, eu ainda estava entendendo o Akin. Foi um desafio porque aquela cena ajudaria a definir muita coisa dali para frente”, relembra o ator.

André garante que o público ainda pode esperar muitas reviravoltas na novela das 6h: “A gente ainda está no meio da novela. Tem muita história para acontecer, muita coisa para ser contada.” Um dos pequenos spoilers revelados por André durante a entrevista é que os próximos capítulos de Nobreza do Amor prometem aumentar ainda mais a tensão na disputa pelo futuro de Batanga. Sem entregar muitos detalhes, o ator adiantou que a trama mostrará uma invasão ao reino comandado por Jandau, o que deve intensificar os conflitos políticos e estratégicos entre os personagens.

Histórias que ainda precisam ser contadas

Durante a entrevista, André também falou sobre os projetos que ainda gostaria de ver retratados na televisão e no cinema. O ator afirma ter interesse em participar de produções que abordem a presença negra em períodos históricos tradicionalmente narrados a partir de perspectivas brancas.

Entre os temas que considera importantes estão histórias ambientadas durante a ditadura militar e produções sobre o Quilombo dos Palmares. Segundo ele, ainda existe uma lacuna na forma como a participação da população negra nesses momentos históricos é retratada pelo audiovisual brasileiro.

“Eu quero contar histórias que mostrem onde estavam as pessoas negras nesses momentos. A gente precisa ocupar esses lugares também nas narrativas históricas.”

Para André, ampliar essas representações é uma forma de romper com apagamentos históricos e oferecer novas referências para as próximas gerações.

“A gente trabalha muito com escassez”

Apesar do momento atual de sucesso, André não esconde que a trajetória foi marcada por dificuldades. O ator relembra que passou cerca de dois anos sem conseguir trabalho na área, enfrentando um período de incertezas e escassez de oportunidades.

“Eu estava dois anos sem trabalhar, sem perspectiva. Batendo na porta, tentando, falando com pessoas, fazendo testes.”

Segundo ele, essa realidade é comum para muitos artistas negros.

“O mercado ainda é muito branco e dominado por pessoas brancas. Então a maioria das oportunidades é pensada para pessoas brancas. A gente trabalha muito com escassez.”

André acredita que a persistência foi fundamental para atravessar esse período. “Se eu não tivesse cabeça, se eu não tivesse persistência e vontade de continuar, talvez eu não estivesse aqui falando com você.”

Ele também destaca a importância de os artistas aprenderem a divulgar o próprio trabalho.

“Eu descobri que é preciso também aprender a “vender” o próprio trabalho. Você não confia em você? Você não sabe que é bom? Então vai mostrar o seu trabalho.”

Ao ser questionado sobre o conselho que daria ao André que iniciou a carreira ainda criança, depois de uma pausa, o ator disse que seria para não desistir quando o caminho for difícil: “Continue do mesmo jeito. Continue confiando na sua intuição. O mundo é difícil, mas você vai conseguir.”

A mesma orientação, segundo ele, vale para jovens negros que sonham em seguir carreira artística: “Estude. O conhecimento ninguém tira da gente. Por mais que você tenha talento, precisa de técnica.”

De Dona Beja à nova fase da carreira

André considera que sua retomada profissional começou com a série Dona Beja, lançada recentemente.

O projeto marcou seu retorno após o período sem trabalho e abriu caminho para uma sequência de produções.

“Foi um renascimento para mim. Eu estava dois anos sem trabalhar. Eles confiaram em mim para esse personagem e, a partir daí, tudo começou a fluir.”

A produção também contribuiu para ampliar seu próprio conhecimento sobre a história da população negra.

“Eu fui descobrindo pessoas pretas com poder. Pessoas que foram donas de terras, que ocuparam lugares importantes. E a gente sempre foi invisibilizado. Existe um imaginário de que a nossa história foi apenas a da escravização.”

Para o ator, um dos maiores méritos da novela é mostrar personagens negros complexos, com desejos, opiniões e estratégias diferentes.

“Ali eram personagens com poder, querendo muitas vezes a mesma coisa, mas pensando de formas diferentes. Isso mostra humanidade.”

Depois vieram novos trabalhos, como Nobreza do Amor, o longa Deserto de Luiza, exibido no Festival de Xangai e centrado em questões de saúde mental, além da segunda temporada de DNA do Crime.

O ator define a fase atual como um momento de gratidão.

“Eu olho para tudo isso e penso: meu Deus do céu, o que eu estou vivendo? Estou vivendo um momento muito incrível, com personagens bons, projetos maravilhosos e tendo a oportunidade de participar deles.”

Ao final da entrevista, André retomou a mensagem que considera essencial para qualquer pessoa que esteja tentando realizar um sonho.

“A principal pessoa que tem que acreditar em você é você mesmo. E como diz a música do Emicida, você é o seu único representante nessa face da Terra.”

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