Como nasceu “Motivos de Sobra”, o encontro entre Gato Congelado e saad.beat – Bocada Forte

Como nasceu “Motivos de Sobra”, o encontro entre Gato Congelado e saad.beat – Bocada Forte

Antes de chegar às plataformas digitais, “Motivos de Sobra” (EME Cultural) nasceu de uma conexão espontânea entre o MC Gato Congelado e o produtor saad.beat. O encontro, impulsionado por uma participação anterior no disco Papo de Profissional”, resultou em um EP construído sobre beats, vivências e uma sintonia criativa que transformou um projeto inicialmente pensado como single em um trabalho de cinco faixas. Com scratches de DJ Marc T, o lançamento, programado para o dia 14 de agosto, reafirma o boom bap como linguagem viva, sem nostalgia vazia ou fórmulas prontas. Um filme com depoimentos sobre o trabalho também será lançado neste segundo semestre.

Em entrevista ao Bocada Forte, Gato Congelado e saad.beat falam sobre o processo de produção do EP, as referências que atravessam o disco, a renovação do boom bap, a cena atual do rap brasileiro, política, mercado e os caminhos percorridos até a construção de “Motivos de Sobra”. Uma conversa sobre criação artística, identidade e a permanência de um rap comprometido com suas origens e com o tempo presente. Nesta sexta (07), os manos vãoi soltar o videoclipe do single “Motivos de Sobra”, com cinematografia de Leandro Asai e Michel Campos na revelação de negativosA música também pode ser ouvida nas plataformas digitais.

BF: Como vocês se conheceram e quando surgiu a ideia de trabalharem juntos?
Gato Congelado – Tenho um amigo chamado MRF Elemental, fechamos uma música juntos pro disco do Saad “Papo de Profissional”. Foi um trampo irado, o Saad com suas batidas me fez resgatar a sagacidade de lançar um trabalho solo. Continuamos em contato e ele foi mandando algumas bases novas, foi pura sincronia, tinha poucas linhas em mente, mas a primeira frase já estava escrita, “Motivos de Sobra”. Essa é uma amizade que vou levar pra vida, esse EP é mais que um manifesto, ele representa a união e a força daqueles que acreditam. Não faltaram motivos, então escrevi em poucos dias, usando como tema das outras músicas, os nomes das próprias batidas que o Saad nomeava, pra mim foi um processo de superação e autoconhecimento, parecia um quebra-cabeças, onde as peças iam se encaixando e quando terminamos de gravar, percebi que estava prestes a cruzar um novo caminho.

BF: Muitas pessoas que apreciam a estética golden era ainda têm em suas playlists artistas dos anos 90, mas sabemos que o estilo de rap que vocês apresentam no disco “Motivos de Sobra” é produzido por artistas de diferentes gerações e nacionalidades atualmente. Como enxergam e analisam a escolha que fazem? Digamos, como veem o boom bap e suas vertentes nos dias de hoje?
saad.beat – Eu acredito que o boom bap diferente de várias outras vertentes do Rap não vai morrer nunca. Pode até ser que não seja tão vendável como o Trap, mas é essência e ninguém vai deixar de fazer. Eu não vejo o estilo como uma moda passageira. O som vem das ruas, dos problemas cotidianos e isso não vai deixar de existir nunca, vai continuar a ser relato pra uma pá de molecada mais nova que está renovando a cena. A particularmente vejo muita coisa boa por ai, de gringo a nacional, na cena brasileira da pra citar aqui Pecaos, Karrasco, PG 400, Puma PJL (febre 90), Nabru, Sain e toda uma cena da nova geração que trás um frescor bem interessante pro boom bap. Eu mesmo toda hora descubro algum mano desconhecido que rima pra caralho. To produzindo um disco de um mano bem underground do interior de minas chamado Jovem Quiron, moleque novo mas é essência pura no boom bap. Por essas e outras eu vejo que o estilo não vai acabar. Ele se renova frequentemente. É tipo o Jazz tem John Coltrane que morreu em 67 e tem o Amaro Freitas que tá esmerilhando por aí.

BF: Como foi o processo de produção? Os beats estavam feitos e foram apresentados? As letras estavam feitas e foram apresentadas? Como foi essa troca de ideias e influências na feitura do disco?
saad.beat – Depois do Papo de Profissional, primeiro disco que lancei, eu comecei a produzir bases novas, e eu acho que mostrei o beat da “Motivos de Sobra” pro Gato Congelado e bateu na hora. Como a gente ficou bem próximo depois da participação dele no disco, eu ia mostrando as bases novas pra ele, e ele foi matando tudo no peito. Acho que o Gato Congelado estava com muita coisa pra falar no momento, pra por pra fora e tudo foi acontecendo naturalmente. Então fomos da ideia de fazer um single pra produzir um EP, porque a conexão estava forte. Eu lembro que teve uma das bases que não rolou pra ele, é interessante isso porque as vezes a gente faz um beat legal pra caralho mas infelizmente ele não casa pro MC. E tinha um dos beats que entrou no lugar desse, da música “Vem do coração”, eu já tinha mostrado esse beat pra uma pá de gente. Ninguém dropou no beat. Quando eu mostrei pro Gato Congelado ele na hora falou: “Esse Beat é meu!”. Se tem uma coisa que eu aprendi aí nessa minha breve e humilde caminhada é que, o Beat escolhe o MC, e não ao contrário.

Gato Congelado – Foi muito natural. Tinha pouca coisa escrita, mas, apesar da distância, parecia que o Saad estava aqui do meu lado soltando as bases da MPC. Gosto de escrever todos os dias, sendo assim, fui construindo as letras com serenidade e mostrando para ele. Na “Motivos de Sobra”, eu só pensava em trazer a minha essência de bate-cabeça, dos rolês na Augusta e da importância das verdadeiras amizades. A “Vem do Coração” me pediu uma levada que até agora fico sem acreditar. Quando fomos gravar, deixei por último e falei: “Essa vai ser a prata da casa”, rs. “Conta pra Mim” é Gato Congelado nas veias. Fala do momento que estou vivendo hoje, é um agradecimento por poder morar perto do mar e poder dormir na grama. “Apostas Encerradas” vem como um brinde: boom bap clássico, com requintes de Quinto Andar. Escrevi a primeira parte em 2004. Nela, trago várias situações relacionadas às jogadas da vida, onde quem não está pronto para jogar, se joga. “Quebrando Canelas” veio numa só canetada, como um presente divino, abrindo caminhos.

BF: Falem um pouco sobre a contribuição do DJ Marc T no trabalho?
Gato Congelado – Minha história com o DJ Marc T começou quando ele veio ao Brasil em meados dos anos 2000. Alguns anos se passaram e, quando terminei o EP, tive a ideia de convidá-lo para fazer os scratches. Foi como uma flechada certeira. Além de amigos, temos muita coisa em comum, e uma delas é nossa fé.
Enviei as músicas e as ideias que tinha em mente. Gosto de deixar o DJ livre para riscar, pois não é diferente de um MC rimando. A participação dele foi essencial, tipo a cereja do bolo.

BF: Autenticidade, consciência e serenidade estão no DNA do disco. As canetadas e os flows refletem uma trajetória e marcam posição em uma nova fase do canto falado, onde o rap brasileiro conquistou um novo status?
Gato Congelado – Acredito que sim. Motivos de sobra são parte da evolução e da conquista, a ideia é simples e direta. Rimas e batidas de peso que acompanham o dia a dia das pessoas, trazendo vivências em comum e muito aprendizado. Hoje, não existe mais um grande evento com menos de três artistas de rap, e isso é grandioso. Temos experiência em falar com as pessoas através da nossa música. Poder fazer isso através da cultura Hip-Hop não tem preço. Não existe mais distância.
saad.beat – Pra mim se existe uma qualidade que mais se sobressai no Gato Congelado é a autenticidade. Ele é dono de rimas únicas que provavelmente só ele consegue fazer. Além de ser um dos melhores seres humanos que já passaram pela minha vida, ele tem um flow único, e pra mim, como fã dele, é gratificante demais ver o que a gente fez no “Motivos de Sobra” e essa fase da caminhada dele. Sou fã de Quinto Andar, Subsolo e Ordem Natural (principalmente). O disco do Ordem eu ouvi incontáveis vezes na vida, pra mim é uma obra de arte, um dos melhores do rap nacional. É o vinho de 1981 que está sendo aberto agora. Na minha opinião ele tá cada dia melhor.

BF: Por falar em novo status do rap, como vocês encaram e analisam a cena atual em questões de temas e estética?
saad.beat – Acho que tá bem pesado o Rap atual, o que pra mim é ótimo, mas eu valorizo do som mais sujo pesado e rua até o mais fino, mais calmo e tranquilo, ou o divertido. Se tudo fosse igual seria muito chato, e nas minhas produções quem dita o tom é o sample. Eu estou no aguardo do novo do Racionais, certamente. Pra mim eles ditam tudo que existe por aí. Muita gente não gostou do Cores e Valores mas eu acho animal, visceral, pesado e moderno. É Oxalá lá em cima e aqui em baixo é Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay.

BF: Em tempos de ascensão da extrema direita e da polarização, em qual espectro político esse trabalho se encaixa? O quanto suas posições políticas pesam na construção dos raps de “Motivos De Sobra”?
saad.beat – Rap de direita não existe e nunca existirá, se existe, não é Rap. Facista bom é facista morto. Eu sou totalmente esquerda. Quer saber o que a gente pensa ouve a última do EP a faixa “Quebrando Canelas”. É isso!

Gato Congelado – “Motivos de Sobra” é pé na porta. É a mosca na sopa de toda essa galera que insiste em ignorar os fatos como se eles não existissem.

BF: Viver de rap hoje é…
Gato Congelado – Viver de rap hoje é… É trabalhar muito e não deixar de acreditar. Creio que a maioria, hoje, ainda tenha que ter outra renda. São poucos os que conseguem viver de música sem precisar descartar a própria essência. Sendo assim, a saga continua… Afinal, nada compra a alegria de saber que a sua música toca as pessoas no coração e, muitas vezes, na alma. Isso não tem preço…

saad.beat – É um sonho, acho complicado mas não impossível. Pra mim, no momento, não dá, e acho que pro Gato Congelado também, mas posso afirmar por nós dois que isso não importa. Dinheiro é bom mas eu pelo menos tô nessa pra me expressar artisticamente. Se vier grana eu tô felizão, manda pra cá que eu quero, hahaha…e se não vier vou continuar fazendo.
Gratidão pelo espaço Bocada, seguimos fortes!

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