Mulheres negras são 65,1% das vítimas de feminicídio no Brasil

Mulheres negras são 65,1% das vítimas de feminicídio no Brasil

As mulheres negras continuam sendo as principais vítimas da violência letal no Brasil. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado nesta quinta-feira (23), mostram que elas representaram 65,1% das vítimas de feminicídio registradas em 2025 e 74,6% das vítimas das demais mortes violentas intencionais de mulheres. No mesmo período, o país contabilizou 1.571 feminicídios, aumento de 4% em relação a 2024, mesmo com a queda de 5,5% nos homicídios de mulheres.

O Anuário aponta que os dados não são contraditórios. Embora os homicídios de mulheres tenham diminuído entre 2024 e 2025, mais mulheres foram assassinadas por razões de gênero. Ao todo, foram registrados 3.539 homicídios de mulheres em 2025. Desse total, 1.571 foram classificados como feminicídio e 1.968 como homicídio feminino, categoria que reúne mortes violentas sem a caracterização da motivação de gênero.

Mulheres negras são 65,1% das vítimas de feminicídio no Brasil
Foto: Freepik.

Segundo o levantamento, o Brasil vive um processo de redução das mortes violentas de mulheres relacionadas à criminalidade urbana, como aquelas associadas a disputas territoriais e mercados ilícitos. Em contrapartida, a violência letal cometida em contextos domésticos e familiares continua avançando.

Em 2025, 44,4% de todas as mulheres assassinadas no país foram vítimas de feminicídio, o maior percentual registrado desde 2015, quando o crime passou a integrar o Código Penal. O último ano também foi o primeiro de vigência integral da Lei nº 14.994/2024, que transformou o feminicídio em crime autônomo, deixando de tratá-lo apenas como qualificadora do homicídio.

Para os pesquisadores, os indicadores revelam um “recuo seletivo” da violência letal contra mulheres. Enquanto diminuem os homicídios em contextos ligados à criminalidade, permanecem elevados os assassinatos praticados por parceiros, ex-parceiros ou pessoas próximas das vítimas.

Escalada da violência

O relatório também mostra que a violência de gênero continua seguindo um padrão de escalada. Em 2025, foram registradas 4.189 tentativas de feminicídio, alta de 5,9% em relação ao ano anterior. Isso significa que, para cada feminicídio consumado, houve quase três tentativas.

Outros crimes frequentemente associados à progressão da violência doméstica também cresceram no período. Os registros de perseguição (stalking) aumentaram 30,1%, enquanto os casos de violência psicológica tiveram alta de 16,9%. Já os registros de descumprimento de medidas protetivas de urgência cresceram 16,7%, sendo o único indicador que apresentou aumento em todas as unidades da federação.

Segundo o Anuário, embora nem todos os casos sigam a mesma trajetória, ameaças, violência psicológica, agressões físicas, perseguições e o descumprimento de medidas protetivas costumam anteceder as tentativas e os casos consumados de feminicídio.

Mulheres negras concentram a maior parte das vítimas

O levantamento destaca que a violência letal continua atingindo de forma desproporcional as mulheres negras. Elas representaram 65,1% das vítimas de feminicídio registradas em 2025, enquanto as mulheres brancas corresponderam a 34%.

A desigualdade racial é ainda mais evidente quando analisadas as demais mortes violentas intencionais de mulheres. Nesse grupo, 74,6% das vítimas eram negras e 24,6% eram brancas.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, esses dados reforçam a necessidade de analisar a violência contra mulheres a partir de uma perspectiva interseccional, considerando que, embora a violência de gênero atinja mulheres de todos os grupos sociais, ela continua incidindo de forma mais intensa sobre as mulheres negras.

Os pesquisadores afirmam ainda que o feminicídio representa a manifestação mais extrema das desigualdades de gênero, do machismo e das relações históricas de controle e dominação sobre as mulheres. Para o relatório, enquanto políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero não forem fortalecidas, os efeitos desse cenário continuarão refletidos nas estatísticas, sobretudo entre a população negra.

Leia: Dez cidades mais violentas do país estão no Nordeste, aponta estudo

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