Postura – Bocada Forte – Desde 1999

Postura – Bocada Forte – Desde 1999

Por Fábio Emecê

Lembro que emprestei um livro do Milton Santos pra um pretenso rapper e sugeri escrever umas letras sobre microfísica do poder. Ele disse que aquilo não representava nada pra ele e queria escrever sobre festa e diversão. Nem precisava escrever sobre microfísica do poder, porque ninguém é obrigado, mas o episódio sempre me faz pensar sobre o que você considera necessário quando manuseia uma parada.

Se hoje temos os movimentos como hastags que precisam estar expostas em posts, portfólios, projetos e prestação de contas, os temas viram questão de ordem numa eterna assembleia sobre o fim dos tempos. Aderência, entendimento, dedicação, envolvimento viram objetivos específicos para avaliadores sedentos em lhe tirar uns pontinhos na sua proposta.

E se antes o questionamento era sobre posicionamento, sobre a falta de flow, de suingue ou até mesmo não querer que um filho ouça relatos sobre mazelas porque se precisaria de exemplos positivos, hoje o questionamento recaí nos números de alcance nas redes sociais, plataformas de streaming e a capacidade de tornar isso viável financeiramente.

Bom, alguém por aí há de dizer: “Esses são os nossos tempos, adapta-se ou morra tentando”. Adapta-se e protele o aluguel, a conta de luz e d`água, fora o dinheiro da passagem. Adapta-se e mantenha o sonho vivo — alguém vai te descobrir, alguém vai ter perceber, você irá viralizar. Tempos de transparência, incluindo o seu fracasso, com aquele plus de auto-engano por realmente se acreditar que é relevante e fundamental para a comunidade em que se fez mais uma intervenção.

Intervenções são necessárias, de antemão. Os sentidos, pra além da visão, precisam ser estimulados. E se o estímulo for alimentado por uma ideia de que quem tá naquele rito comunitário tem elementos, interpretações, vontades e manuseios para se bater de frente contra uma lógica opressiva, que se continue. Na tentativa de existir e no erro de insistir, repito: Intervenções são necessárias.

Agora repara que no entrocamento de pessoas para um bem comum, há um deslocamento de sentido, um descolamento de função, pois precisamos da festa, mas diante do que acontece, cadê o pensamento? Cadê o manuseio? Cadê a disciplina? Cadê a ética? Cadê a estética? Cadê a cura? Por mais que essas perguntas sejam arbitrárias, por acreditar (eu) de que isso deveria ser notado nos encontros, nas intervenções e mobilizações diversas, chamo a atenção de que pra além de métricas impostas por pessoas que não se importam conosco, outras possibilidades não tem feito muito sentido.

A recepção não faz sentido e os acolhimentos precisam ser convincentes o suficiente pra se colocar num relatório final de execução. A palavra vira um instrumental e se mata as narrativas, os nossos estopins para lutas possíveis e improváveis. O poder da palavra ficou vazio. O esvaziamento enquanto método. A palavra acende fagulha, bota fogo no quarteirão deixa as pessoas sem rumo ou incita a revolução. Ela também é tato, é olfato, é gosto, é audição, é ainda a vida com suas variabilidades e fricções.

De volta ao começo, um rapper falar sobre microfísica do poder vale? Não sei. Um rapper falar sobre diversão vale? Não tenho a miníma ideia. As valorações são múltiplas, mas se puder contribuir pra alguma coisa, pense que muito dos nossos manuseios, manuseios feitos por pessoas como nós, são e foram constituídos pra que não morramos de inanição, por mais que o sistema, o status quo intervenha e nos desarticule . A questão é a que intervenção sistêmica é inconclusa e cheia de pontos cegos, a ponto de gente como a gente tá por aí continuando, se aprofundando, insistindo, fazendo. A contribuição serve pra algo? Qual seria a sua postura?

, https://www.bocadaforte.com.br/opiniao/postura

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