#OutrasCenas: Música, ideia e atitude na noite de lançamento do livro ‘Grafic Punk’ – Bocada Forte

#OutrasCenas: Música, ideia e atitude na noite de lançamento do livro ‘Grafic Punk’ – Bocada Forte

Foto: Flávio Galvão

Nos anos 1990,  a juventude periférica corria atrás de um sonho que poderia ser realizado por meio do Rap. Fazer músicas com letras revolucionárias e, ao invés de utilizar instrumentos, manipular equipamentos de gravação e reprodução de vinil para manter a tradição dos primeiros dias do Hip-Hop era algo subversivo aqui no Brasil. Ao mesmo tempo, nas mesmas ruas e com a mesma pegada política e de resistência, o lado punk das diferentes revoltas da juventude fazia articulações. Tudo andando junto e separado…e junto.  Parte dessa história foi desenhada, compilada, registrada e recontada num evento que rolou no dia sete de maio.

A noite de lançamento do livro “Grafic Punk”, organizado por Rômulo dos Santos Paulino e editado por Marciano Ventura, da editora Ciclo Contínuo Editorial, foi um reencontro, uma celebração da arte, da memória e da correria de uma geração que, através do movimento anarcopunk, deixou sua marca na cultura brasileira. A parada rolou na Ação Educativa.

Rômulo dos Santos Paulino, o idealizador do projeto, expressou sua alegria em reunir pessoas queridas, comparando o encontro a uma arte em si. Ele destacou a natureza coletiva da obra, que contou com a colaboração de nove pessoas, e a importância de revisitar as conexões e experiências que marcaram a cena anarcopunk desde a década de 90.

Rômulo e Marciano Ventura relembraram os tempos em que a comunicação era feita por correspondência, com a “operação de guerra” que era buscar pacotes de cartas na caixa postal.  O livro “Grafic Punk” surge de uma preocupação com a produção estética da periferia, a cultura e a movimentação política. Marciano Ventura, parceiro de longa data de Rômulo, percebeu a riqueza de talentos que os cercava, muitos dos quais contribuíram para a identidade visual do movimento.

A ideia de criar um fanzine com poucas ideias e muitas imagens, focado em entrevistas e coletâneas de obras dedicadas a cada autor, foi o ponto de partida. Rômulo contou como a iniciativa incentivou os artistas a resgatarem seus trabalhos, muitos dos quais estavam perdidos ou esquecidos.

A pesquisa para o livro revelou a dificuldade em atribuir autoria a muitas obras, já que a preocupação com créditos e fichas técnicas era rara na época. Rômulo enfatizou que o projeto busca dar “cara a essas pessoas”, muitos dos quais permaneceram no anonimato, apesar de seu trabalho ter dado identidade visual a bandas e ao movimento.

O livro apresenta uma variedade de técnicas artísticas, desde a “bic preta” em folha de ofício até o pontilhismo com nanquim, demonstrando o capricho e a dedicação dos artistas. As colagens de Lúcia, que sobreviveram a um incêndio provocado por um ex-parceiro, são um testemunho da resiliência e da paixão pela arte.

Marciano Ventura, por sua vez, trouxe uma perspectiva sobre a juventude dos envolvidos na época, com idades entre 15 e 25 anos. Ele desmistificou a ideia de um movimento anarcopunk “extremamente coletivizado e coeso”, descrevendo-o como um grupo de jovens tentando sobreviver, muitas vezes buscando comida na casa de amigos ou na Ação Educativa.

PLAYLIST CRIADA POR CLODOS PAIVA QUE ROLOU NO EVENTO
https://www.youtube.com/watch?v=videoseries

A pobreza era uma realidade marcante, com a compra de uma máquina de escrever sendo uma “realização” que exigia o esforço de 10 a 15 pessoas. No entanto, essa fragilidade material era compensada por uma riqueza de conhecimento, com o movimento proporcionando contato com literatura política, contracultura e a produção de fanzines.

O desinteresse pela condição de artista, que levava à falta de assinaturas e preocupação com direitos autorais, era uma característica da ideologia da época. Marciano Ventura relatou a surpresa de alguns artistas ao serem solicitados a dar autorização para o livro, pois para eles, a arte era para circular livremente.

Apesar da falta de preocupação com a autoria na época, o livro busca dar o devido crédito e reconhecimento a essas pessoas, um “mínimo de respeito” que Marciano Ventura considera essencial. Ele expressou sua felicidade em ver o espírito daquela época, de colaboração e compartilhamento, sendo revivido no projeto.

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O livro também conta com a participação de Renato Maia, um dos fundadores da banda Descarga Violenta, que contribuiu com um texto sobre o espírito que contaminou a geração anarcopunk. Maurício, fundador da banda SP, também participa, com suas letras que refletem o mesmo espírito.

A escolha de Rômulo por uma relação afetiva na seleção dos artistas se estendeu ao Nordeste, sua terra natal. Ele, que chegou a São Paulo em 1995 vindo do Ceará. O editor relembrou sua participação no movimento punk em Fortaleza de 1989 a 1995, antes de se mudar para São Paulo. 

A noite de lançamento também foi um momento para relembrar o engajamento político do movimento anarcopunk, com a participação na primeira Parada do Orgulho Gay (então GLS), a segurança da manifestação na Paulista, a luta pela libertação do Múmia em frente ao Consulado Americano, e o apoio ao comitê zapatista.

A relação do movimento anarcopunk com o movimento negro foi destacada como um exemplo de como as lutas se entrelaçavam. A organização dos primeiros encontros anarquistas, incluindo o “Na Comuna”, que reuniu apenas mulheres, também foi mencionada.

A importância de resgatar a história das mulheres anarquistas dos anos 90, tema de um documentário de Marina Shane, foi enfatizada. A evolução do feminismo desde então, tornando-se uma das causas que mais crescem, foi celebrada.

A presença de novas gerações, como a filha de Rômulo, Nina, e o filho de Marciano, Zion, que colaboraram na organização do livro e do evento, demonstra a continuidade do espírito anarcopunk. 

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