Fotos: Man Produções
No dia 14 de maio, rolou o encontro “HIP-HOP – MEMÓRIAS, CONSTRUÇÕES e AVANÇOS” na Ação Educativa. MC Who?, Clodoaldo e Rubia Fraga discutiram as perspectivas futuras da cultura, suas origens, desafios e a importância da memória e da participação feminina. O encontro foi mediado pela pesquisadora Cris Moscou e organizado pelo Pontão de Cultura Hip-Hop Mulher.
MC Who? iniciou a discussão abordando a história do hip-hop. Ele mencionou o marco de 11 de agosto de 1973, com o evento de Kool Herc, como o ponto de partida para a contagem nos EUA.
No entanto, Who? ressaltou que o Brasil não possui um marco tão definido, e ele está escrevendo um livro para fundamentar um marco para a contagem do tempo do hip-hop no país. Ele também criticou o mito de origem do hip-hop forte dos Estados Unidos, mencionando que eventos semelhantes já existiam.
A técnica do uso dos toca-discos foi apontada como uma das grandes características que diferenciaram o evento de Kool Herc dos demais. Ru também mencionou a polarização entre “curhanquianos” e “bombatianos” como uma forma de sistematizar a complexidade da cultura.
Ele destacou que o hip-hop tem uma “mãe”, a África, e que sua origem dialoga com o contemporâneo, confrontando o pensamento colonial, supremacista e racista. Ru evitou o termo “diáspora”, preferindo “deslocamento de corpo”, por considerar “diáspora” um termo heroico ligado à libertação do povo judeu.
Who? diferenciou as trajetórias de Kool Herc e Afrika Bambaataa. Kool Herc, com sua origem jamaicana e o deslocamento de sua família, trouxe a gênese do hip-hop dialogando com a mãe África. Bambaataa, por sua vez, emergiu dos guetos, organizando gangues e buscando a sobrevivência.
Ele enfatizou que essas duas figuras não representam uma oposição, mas uma complementaridade, onde um evidencia a origem e o deslocamento, enquanto o outro, embora com a mesma raiz, já a tem suprimida pela organização das gangues.

Clodoaldo, por sua vez, refletiu sobre o futuro como ficção e a importância de olhar para o passado para entender o presente. Ele afirmou que o hip-hop nasceu do silêncio onde deveria haver voz, como uma linguagem de sobrevivência e ferramenta de consciência para a juventude negra e periférica.
Ele destacou o papel do hip-hop em ensinar geopolítica, racismo, violência policial e ancestralidade, alfabetizando emocional e politicamente. Clodoaldo alertou para a tentativa de esvaziar o hip-hop em um tempo de precarização da vida e ascensão de uma onda conservadora.
O hip-hop, para Clodoaldo, não é apenas entretenimento, mas disputa de narrativa, construção de comunidade, memória e denúncia, além de anúncio de possibilidades. Ele enfatizou a necessidade de o hip-hop manter sua dimensão pedagógica e política, especialmente diante da ocupação das redes pela extrema direita.
Ele alertou que, se o hip-hop não formar os jovens, outros o farão, e se não houver acolhimento, a lógica do ódio prevalecerá. Clodoaldo defendeu o fortalecimento de batalhas, saraus, oficinas e coletivos como espaços de formação humana.
Um ponto crucial levantado por Clodoaldo foi o papel das mulheres no hip-hop brasileiro. Ele criticou o individualismo e o machismo de muitos homens da cena, enquanto as mulheres mantiveram viva a dimensão coletiva, crítica e transformadora do movimento.

As mulheres, segundo ele, trouxeram novos debates sobre cuidado, violência, maternidade, paternidade, corpo, autonomia, raça, território e afeto, sem abandonar a contundência política. Clodoaldo afirmou que o futuro do hip-hop depende de menos ego e mais comunidade.
Rubia Fraga, ao abordar a questão de gênero e juventude, compartilhou sua experiência de conhecer o rap em 1989 e a dificuldade de encontrar seu lugar como mulher nesse universo. Ela destacou a importância de ver mulheres no palco para se sentir integrante da cultura.
Ela ressaltou que as mulheres do hip-hop, muitas vezes esquecidas e silenciadas, estiveram presentes desde o início, como Cindy Campbell, Sharylaine e MC Regina. Rubia Fraga enfatizou que não se pode pensar na memória da cultura hip-hop sem considerar as mulheres que a construíram e continuam a construir.
Rubia Fraga mencionou o surgimento de coletivos femininos como resposta ao apagamento da memória dessas mulheres e a importância de retomar esses diálogos. Ela também expressou sua preocupação com o legado que os mais velhos estão deixando para a juventude.
Ela afirmou que o hip-hop é “imorrível” e que a cultura é maior que qualquer indivíduo. Rubia Fraga destacou a importância de espaços como a escola de hip-hop para manter os jovens nas escolas e promover uma educação popular e de trocas. Para Rubia, o Hip-Hop tem muitos sábios e sábias que não acessaram as academias, mas nas palavras trazem todo a bagagem do conhecimento da cultura Hip-Hop,
Ao final, os participantes debateram a questão da “Universidade/Escola do Hip-Hop” e a importância dos saberes orgânicos.Who expressou ceticismo sobre a iniciativa, aguardando para ver a linha pedagógica e quem estará à frente.
Clodoaldo, por sua vez, questionou a legitimidade de quem tenta invalidar a participação de pessoas como Marcinha no hip-hop, afirmando que a rua é quem valida. Ele também criticou a discussão sobre o hip-hop ser de direita ou esquerda, defendendo que o hip-hop deve estar na rua, defendendo direitos e dando voz a quem não tem.
MC Who, em uma fala contundente, afirmou que o hip-hop contemporâneo está atrasado em sua perspectiva revolucionária, reproduzindo a dinâmica do colonialismo que deveria combater. Ele enfatizou que o hip-hop é antagônico à direita, sendo herdeiro direto do abolicionismo e da luta pela liberdade.

PRINCIPAIS PONTOS DEBATIDOS NO EVENTO
. Origem e História do Hip-Hop:
. O hip-hop é considerado uma cultura com 42 anos, tendo como marco o evento de 11 de agosto de 1973 com Kool Herc.
. No Brasil, não há um marco único para a contagem do tempo do hip-hop, e um livro está sendo escrito para fundamentar um.
. A cultura hip-hop tem várias camadas e dimensões, e sua origem dialoga com a África, considerada a “mãe” do hip-hop.
. A gênese do hip-hop está ligada a antídotos contra a “bestialidade” e é antagônica ao colonialismo.
. Figuras Chave e Suas Perspectivas:
MC Who?: Vê o hip-hop como tendo uma “mãe” (África) e discute a origem diaspórica de figuras como Kool Herc, que trouxe a gênese do hip-hop da Jamaica para os EUA. Ele também aborda a questão da “diáspora” como um termo heroico e prefere “deslocamento de corpo” para a experiência africana.
. Clodoaldo: Afirma que o hip-hop nasceu do silêncio onde deveria haver voz, como uma linguagem de sobrevivência e ferramenta de consciência para a juventude negra e periférica. Ele destaca o papel do hip-hop na alfabetização emocional e política e critica o esvaziamento da cultura por forças conservadoras e o capitalismo contemporâneo.
. Rúbia: Enfatiza a importância das mulheres na cultura hip-hop, que muitas vezes foram esquecidas ou silenciadas, mas estiveram presentes desde o início (como Cindy Campbell). Ela destaca que as mulheres mantiveram viva a dimensão coletiva, crítica e transformadora do movimento, trazendo novos debates e sensibilidades.

. Desafios e Críticas Atuais do Hip-Hop:
. Esvaziamento e Conservadorismo: Há uma preocupação com o esvaziamento do hip-hop, a precarização da vida da juventude, a lógica do algoritmo e uma onda conservadora que transforma frustração em ódio.
. Solidão e Autoritarismo: O capitalismo contemporâneo produz solidão e competição, levando ao crescimento de discursos autoritários que oferecem respostas simples para dores complexas.
. Disputa de Narrativa: O hip-hop é uma disputa de narrativa, construção de comunidade, memória e denúncia, e não pode abandonar sua dimensão pedagógica e política.
. Formação da Juventude: É crucial formar os jovens, pois, caso contrário, a lógica do ódio e o algoritmo produzirão ressentimento.
. Machismo na Cena: Muitos homens da cena foram capturados pela lógica da ostentação vazia e do individualismo, enquanto as mulheres mantiveram a essência coletiva e transformadora.
. Hip-Hop e Política (Direita/Esquerda): A discussão sobre o hip-hop ser de direita ou esquerda é considerada sem sentido por alguns, pois o hip-hop deve estar na rua, defendendo direitos e dando voz a quem não tem. É impossível o hip-hop ser de direita, pois ele é “África” e herdeiro do abolicionismo.
. Hip-Hop Contemporâneo Atrasado: Há uma crítica de que o hip-hop contemporâneo está atrasado em sua perspectiva revolucionária, reproduzindo a dinâmica do colonialismo que deveria combater.

. Perspectivas para o Futuro:
. Fortalecimento de Espaços: É necessário fortalecer batalhas, saraus, oficinas, posses, coletivos, slams, estudos comunitários e a circulação cultural nas periferias.
. Reconhecimento das Mulheres: O futuro do hip-hop brasileiro depende do reconhecimento da centralidade das mulheres, que sustentaram o espaço da cultura.
. Legado e Memória: A importância de os mais velhos deixarem um legado para as futuras gerações e de resgatar as histórias das mulheres na cultura hip-hop para que não caiam no esquecimento.
. Escola de Hip-Hop: A criação de uma “universidade do hip-hop” (Unipop) ou “escola de hip-hop” é vista com cautela, pois a linha pedagógica e os responsáveis por sua implementação são cruciais para determinar se será benéfica ou prejudicial.
. Conhecimento e Rua: A rua é quem valida a autenticidade no hip-hop, e o conhecimento não deve ser hierarquizado, mas sim visto como parte integrante de toda a cultura.
. Paulo Freire: Paulo Freire foi um dos primeiros a perceber o potencial do hip-hop na perspectiva do senso crítico.

PERFIL
– Rúbia Fraga (RPW) – artista do Hip Hop, socióloga e servidora pública da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo – responsável pelo escrito: “LONGA E ESTRANHA CAMINHADA: invisibilidade e protagonismo da mulher no rap paulista no período dos anos 90 até a atualidade de 2019.
– Clodoaldo Arruda – É filósofo, rapper do grupo Resumo do Jazz e produtor musical. Envolvido na cultura Hip Hop desde 1988 e militante do feminismo negro desde 1992. Atualmente, está tocando um projeto de multimídia chamado Arruda Crônico, que abrange Hip Hop, política, cultura, filosofia e comportamento, tudo isso nas redes sociais. Fez parte do Projeto Rappers desde o início até o seu encerramento.
– MC Who? – rapper e pioneiro da Cultura Hip Hop no Brasil, reconhecido por sua participação no histórico álbum Hip Hop Cultura de Rua (1988) com o grupo O Credo. Who? é reconhecido como uma testemunha e protagonista das primeiras manifestações do Hip Hop em São Paulo.
– Cris Moscou – Cris Moscou tem mais de 25 anos de experiência em arte-educação entre Museu AfroBrasil, Fundação Casa e oficinas em fóruns de Hip Hop — quase sempre com foco em literatura marginal e periférica, questões de gênero e raça, além de políticas públicas e sociais.
Com informações do Pontão de Cultura Hip-Hop Mulher.
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