Enquanto a ditadura brasileira se reunia com Richard Nixon nos EUA, outro encontro moldou a cutura de rua
Década de 70. Anos de Chumbo no Brasil. Repressão violenta, tortura, censura e perseguição a opositores. Nos EUA, na primeira semana de dezembro de 1971, o general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), amplamente considerado o presidente mais violento da ditadura militar brasileira, teve um encontro com o presidente norte-americano Richard Nixon.
De acordo com fontes oficiais e a imprensa da época, Médici discursou sobre um novo ponto de partida: “Não pode a nossa posição ser a mesma diante de todos os temas internacionais, nem é isso que se espera de nossa franca e leal amizade. Esforçamo-nos, contudo, para que nossas políticas sejam convergentes, sem pretendermos a coincidência em todos os casos”. E acrescentou: “O Brasil de hoje, em pleno desenvolvimento, aceita o desafio da história, que lhe atribui crescente responsabilidade no concerto das nações. É com esta convicção que venho ao encontro de vossa excelência”.
Já Nixon afirmou: “Os contatos com o presidente do maior país da América do Sul constituem parte importante do processo de consultas que mantive junto aos governos dos maiores países da Europa, além do Japão e Canadá, antes de partir para a União Soviética e a China”
Na mesma semana, outra reunião foi o primeiro passo para moldar a cultura e a vivência de grupos excluídos nos EUA e, depois, em diversas partes do mundo.
O TRATADO
No dia 8 de dezembro*, um tratado de paz entre gangues foi orquestrado pelos Ghetto Brothers, com o objetivo de transformar a morte de Cornell Benjamin (Black Benji), um de seus líderes, em algo positivo para a comunidade do Bronx. Este encontro, que contou com a presença de representantes de gangues de toda a área, buscava a paz entre os grupos.
O tratado de paz, que historiadores e membros do Hip-Hop dizem ter sido realizado na Whole Avenue, foi um grande encontro de gangues, principalmente as maiores da área do Bronx, como Savage Nomad, Scars, Ghost e 70 Mortels. Os Black Spades do Bronx, por exemplo, caminharam de Elder Avenue para o local do encontro.
Durante a reunião, os chamados conselheiros de guerra de cada gangue apresentaram suas queixas, com acusações mútuas de atos violentos. No entanto, a conclusão geral foi que a polícia estava manipulando as gangues para que lutassem entre si. Isso levou à decisão de formar um tratado de paz.
A INFLUÊNCIA DO TRATADO NA COMUNIDADE E O SURGIMENTO DO HIP-HOP
O tratado de paz teve um impacto significativo, permitindo que as pessoas circulassem pelos territórios das gangues sem problemas. Embora não se possa afirmar diretamente que o tratado levou ao Hip-Hop, ele criou um ambiente onde os DJs podiam tocar em parques e diferentes áreas sem o risco de conflitos entre gangues. A mudança não foi imediata, tretas e mortes continuaram a fazer parte do cotidiano dos moradores da região durante a década de 70, apesar da sememte que foi plantada.
“Bem, a questão é que quando você dava uma festa em casa ou talvez a igreja fizesse uma festa no porão, o que essas gangues faziam era realmente aterrorizar as pessoas. Eles simplesmente apareciam no seu apartamento…Então, se eles estivessem procurando alguém, se soubessem que essa pessoa iria estar lá, tentariam atirar nela, espancá-la, algo assim”, diz a pioneira Cindy Campbell durante entrevista por videochamada ao autor do livro “Can’t Stop Won’t Stop: A History of the Hip-Hop Generation” e jornalista cultural Jeff Chang.
O processo e o caminho para a paz permitiu que a música florescesse, pois, com o passar do tempo, os DJs não precisavam se preocupar com brigas em seus territórios e em territórios rivais. Ao falar das mudanças comportamental entre os jovens dos guetos, Cindy continua: “Então, quando começou a mudar, muita gente não queria estar em gangues, mas era como se você fosse jovem, adolescente e quisesse pertencer a algo. A pessoas tentaram nos fazer entrar em gangues, mas nós não entraríamos em nenhuma gangue.”
Sobre ser membro de gangue, DJ Kool Herc, na mesma entrevista, afirmou: “Meu pai estava no meu pé. Bem, isso não iria acontecer”.
Antes do tratado, os Spades eram frequentemente culpados por tudo, e a polícia os abordava constantemente. Havia um ponto em que as pessoas evitavam usar as cores dos Spades em certos bairros, temendo que isso provocasse problemas. Embora não fossem “odiados”, os Spades eram muito temidos por outras gangues.
A ESTRUTURA E LIDERANÇA DOS SPADES
Os Spades eram a maior gangue de rua de Nova York. A organização interna dos Spades incluía um sistema de pagamento de “dívidas” semanais. Cada membro de uma divisão contribuía com dinheiro, que era então entregue ao presidente da divisão. O presidente, por sua vez, levava o dinheiro para os Spades do Bronx, que eram a sede. Por exemplo, o presidente da Primeira Divisão, Primeira Seção, coletava cerca de cem dólares por mês de sua divisão, que incluía áreas como Bronx River, Soundview, Bronx Cells e Washington Avenue.
A liderança dos Spades passou por uma transição. David Brockington, que era uma influência mais positiva e civil, tentava evitar brigas e era muçulmano, não consumia álcool ou maconha. No entanto, alguns membros se cansaram de viver sob essas restrições. Quando Monk assumiu a liderança, a atmosfera mudou. Monk era mais confrontador e não “levava desaforo para casa”, o que alguns membros viam como uma libertação, permitindo-lhes agir de forma mais “selvagem”.
Dentro desse processo surge a figura de Afrika Bambaataa, ex-integrante dos Black Spades que transformou a experiência organizacional das gangues em um movimento cultural ao fundar a Universal Zulu Nation em 1973. A proposta era substituir a violência pela música, pela dança e pela organização comunitária, criando um novo modelo de atuação juvenil baseado em DJs, MCs, breakers e artistas de rua. A trégua construída no tratado de 1971 facilitou a circulação entre territórios, permitindo festas de rua, block parties e encontros que se tornariam fundamentais para a consolidação do Hip-Hop no Bronx.
A passagem da guerra territorial para a cultura de rua mostra como organizações juvenis, acordos comunitários e lideranças locais criaram um ambiente onde música, identidade e organização coletiva passaram a ocupar o lugar da violência, redefinindo o Bronx e influenciando movimentos culturais em diversas partes do mundo.
NO INÍCIO, A REJEIÇÃO
No início do Hip-Hop, muitos, incluindo pessoas da mesma comunidade, não aceitavam a cultura, chamando-a de “música de selva” e criticando o break dance (breaking). Eles preferiam a era disco e tentavam impedir os hip-hoppers de tocar sua música em parques e festas. Apesar da rejeição inicial e de serem chamados de “vagabundos de tênis”, os criadores do Hip-Hop persistiram. Somente quando a disco music morreu e o Hip-Hop se comercializou a partir do rap- que antes era a prática do mcing– é que a cultura ganhou aceitação generalizada, com muitos que antes a odiavam querendo se associar a ela.
Nesse contexto, Terrence Ronnie Keaton, uma criança com aproximadamente dez anos de idade, ouve o som que vem de longe. Nas block parties , Keaton irá formar sua identidade junto com a cultura de rua. Hoje o conhecemos como pioneiro T La Rock. Falaremos sobre ele no próximo texto.
*algumas fontes dizem que a reunião ocorreu em 7 de dezembro de 1971.
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, https://www.bocadaforte.com.br/materias/antes-do-hip-hop-o-tratado-de-paz-de-1971