Na recente entrevista com o renomado teórico cultural Paul Gilroy, o autor de “O Atlântico Negro” apresenta um diagnóstico alarmante: o conceito que antes unia as culturas diaspóricas enfrenta um colapso, exacerbado pela vigilância algorítmica e pela monetização da atenção. Gilroy destaca que a música, uma vez central na expressão e resistência cultural, perdeu seu papel vital, sendo agora consumida de forma isolada e mercantilizada. Ele argumenta que a fluidez insurgente das culturas afrodescendentes está ameaçada e propõe uma ruptura teórica em direção a um “humanismo feito à medida do mundo”, conforme preconizado por Aimé Césaire.
A entrevista ganha relevância em um contexto em que a Assembleia Geral da ONU reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como um crime contra a humanidade, exigindo reparações formais. Gilroy critica a abstenção do Reino Unido nesta votação, sugerindo que o país ainda não consegue confrontar as consequências de seu passado colonial. Para ele, a verdadeira reparação exige um acerto de contas com a hierarquia racial, um tema que se torna cada vez mais urgente em um mundo marcado por crises sociais e políticas, como o ressurgimento do fascismo e a fragmentação da solidariedade social.
Além disso, Gilroy explora a necessidade de um novo arcabouço decolonial que transcenda as noções tradicionais de justiça, especialmente em face da emergência climática. Ele enfatiza a importância de promover uma “convivialidade” que permita a coexistência em um mundo polarizado, e alerta para os perigos do anti-intelectualismo que afeta as universidades, onde o humanismo antirracista é frequentemente desconsiderado. A reflexão de Gilroy sobre a música e a resistência cultural nos convida a repensar nosso papel na luta contra a opressão e a desigualdade.
Fonte: Leia a íntegra da entrevista no site OUTRAS PALAVRAS (https://outraspalavras.net/)
, https://www.bocadaforte.com.br/materias/bf-indica/outras-palavras-paul-gilroy-analisa-os-desafios-contemporaneos-da-resistencia-cultural