Grande parte da cena Rap se comporta e reage da forma como aprendeu a pensar durante sua experiência na cultura de rua. Existem conflitos entre gerações que habitam a cena em diferentes espaços. É notório, estamos em uma nova fase em relação à entrada de outras formas, ideias e atores no cenário. Uma dessas transformações é o protagonismo de pessoas trans que reivindicam seu espaço no Rap.
Temos orgulho de pertencer à uma cultura que nasceu entre os excluídos e representa a luta contra a discriminação, a desigualdade social, o racismo e o preconceito, mas o que havia e o que não havia nos primórdios do Hip-Hop brasileiro? Quem eram os sujeitos e quais eram os discursos do Rap?
Quais eram as correlações de forças entre os integrantes do Hip-Hop? Por quais razões os corpos dissidentes esconderam ou disfarçaram suas essências no movimento cultural e periférico que crescia no Brasil?
A presença de pessoas trans no Rap brasileiro ainda costuma ser abordada a partir de estatísticas duras sobre violência e exclusão. Embora esses dados revelem um cenário estrutural de desigualdade, eles não dão conta da complexidade das trajetórias individuais nem das estratégias de sobrevivência, criação e afirmação que atravessam essas trajetórias. A onda da extrema direita, da direita reacionária, e dos fundameltalistas cristãos, com apoio de uma sociedade que se diz conservadora, ganha fortes representantes na política e muitos simpatizantes entre os que dizem que o Rap não é de esquerda e nem de direita, é simplesmente “antissistema”.
No interior da Cultura Hip-Hop ou na indústria que exclui e domina o mercado do Rap e seus subgêneros, com pouco ou quase inexistente apoio de integrantes da cena, artistas trans vêm tensionando limites históricos, reconfigurando estéticas, discursos e práticas, ao mesmo tempo em que enfrentam barreiras que ultrapassam o campo artístico e alcançam o acesso à educação, ao trabalho, à moradia e à circulação segura pela cidade.
Essa perspectiva dialoga diretamente com a reflexão proposta pela pesquisadora Sara York, que, em entrevista ao site da revista Carta Capital, sugere deslocar o foco das análises do número para a experiência, do estigma para os processos de transformação. Ao investigar políticas como as cotas trans nas universidades, York aponta que o acesso institucional é apenas uma etapa de um percurso mais amplo, que exige políticas de permanência, acolhimento e revisão constante das normas que estruturam os espaços educacionais. No Rap, esse debate encontra ressonância na trajetória de artistas que fazem da música uma ferramenta de enfrentamento simbólico, construção de identidade, afirmação política, continuidade e permanência.
Entre esses nomes, a rapper Sé da Rua é uma das vozes relevantes do Rap trans no Brasil. Artista travesti e periférica, ela construiu sua discografia a partir de narrativas que articulam território, ancestralidade, gênero e desigualdade social. Em álbuns como Bruxaria de Viela (2020) e Ori de Trava (2023), Lágrimas do Palhaço (2025) e Tempos de Corre e Caos (EP 2026), Sé da Rua desenvolve uma escrita direta, marcada por denúncia social, reflexão existencial e afirmação de pertencimento.
Outro nome de destaque é Monna Brutal, rapper trans da periferia de Guarulhos, cuja trajetória começou nas batalhas de rima e se desdobrou em álbuns como 9/11 (2018), 2.0.2.1. (2021), La Janta (2021), Vista Grossa (2024), Limonada (2023) e Tormento (2025) . Sua escrita combina crítica social, observação cotidiana e comentários sobre as dinâmicas de exclusão nas periferias urbanas. A atuação de Monna evidencia como o Rap segue sendo uma ferramenta de leitura da realidade, capaz de traduzir conflitos locais em linguagem musical e política.
Na mesma direção, Emy Roots, de Belo Horizonte, vem ampliando o debate sobre identidade, gênero e juventude periférica. Seu álbum Gênero (2024) reúne faixas que abordam a vivência não binária, o racismo estrutural e os desafios da afirmação em contextos de vulnerabilidade social.
Essas trajetórias dialogam com um movimento mais amplo que inclui artistas como MC Dellacroix, Jup do Bairro, Rosa Luz, Boombeat, Linn da Quebrada, Jupi77er, entre outros, outras e outres que a nossa ignorância e preconceito impedem de conhecer, como o veterano Tiely, multiartista e considerado o primeiro rapper trans do país, graduado em história com especialização em museologia e patrimônio, em sua formação desenvolve trabalhos de inclusão no Pontão de Cultura Hip-Hop Mulher, em São Paulo.
Recentemente, Jupi77er lançou o disco ‘O Ano do Boyceta’, reforçando essa estratégia de se fazer ser visto, ouvido, respeitado e fazer do Rap a sua ferramenta em busca de espaço e permanência. Rosa Luz também é multiartista e criou na sua quebrada o Pantanal Favela Studio, que foi inaugurado com a exposição ‘Sangue nos Olhos‘, de autoria da própria artista.
Anuby Messias é outra artista que usa sua arte para refletir, protestar e traduzir suas vivências e ancestralidade através de poesias, música e do audiovisual, ela acabou de lançar o EP ‘Ira – A Travesti na Escravidão’. Em 2023, ela lançou um curta-metragem com o mesmo título. Inspirada em Xica Manicongo, considerada a primeira mulher trans brasileira, ela coloca de forma imagética o que seria uma travesti na escravidão.
Ainda que cada artista opere em linguagens distintas dentro do Rap, trap, funk e música experimental, também compartilham o desafio de ocupar espaços historicamente atravessados por machismo, transfobia e homofobia. No Rap, esse enfrentamento se manifesta tanto no conteúdo das letras quanto na disputa simbólica por legitimidade artística, além do combate à exigência estética de uma ala que busca legitimar apenas o boom bap como forma de expressão do canto falado, rejeitando qualquer sonoridade que se aproxima do pop.
A inserção de pessoas trans na cultura Hip-Hop também recoloca em debate a própria ideia de tradição dentro do gênero. Se o Rap brasileiro construiu sua identidade a partir da denúncia social, da crítica ao racismo e da leitura das desigualdades urbanas, a emergência dessas vozes amplia esse campo ao incorporar questões de gênero, sexualidade e corporeidade como dimensões centrais da análise social.
Embora muitos na cena se sintam ameaçados por essa mudança, ela não anula ou substitui as questões históricas, mas sim as amplia. O resultado é a conexão de lutas que, durante muito tempo, foram abordadas de maneira isolada e fragmentada.
Nesse cenário, a produção artística se articula com disputas por políticas públicas, acesso à educação e construção de redes de apoio. Assim como aponta Sara York em suas pesquisas, a transformação estrutural depende de ações que ultrapassem o plano simbólico e alcancem o cotidiano das pessoas trans.
No Rap, essa articulação se expressa na organização de coletivos, na criação de espaços autônomos de circulação cultural e na ocupação de festivais, eventos, plataformas digitais, na veiculação em sites, blogs e mídias sociais, ainda que de forma desigual. Em São Paulo, a Batalha Dominação é um exemplo da concentração, acolhimento e trocas para pessoas trans e também mulheres e não binaries.
Ao transformar vivências em narrativa, artistas trans do Rap brasileiro produzem memória social, registro histórico e reflexão crítica. Suas obras são documentos de um tempo marcado por conflitos, avanços parciais e disputas permanentes por reconhecimento, autonomia e dignidade. No início do Hip-Hop no Brasil, pessoas trans não tinham a mínima abertura para atuar num campo hostil às suas experiências de vida.
É no confronto cotidiano, independentemente do número de recursos ou “armas”, que essas pessoas estabelecem laços de pertencimento. Esse processo força a cena Rap a reafirmar sua essência como ferramenta política e cultural, capaz de assimilar novas vivências sem perder seu papel de crítica social.
Colaboração: Gil Souza

ACERVO BF
Na edição da Revista Bocada Forte (Novembro de 2019), apresentamos um rico material sobre diversidade, com artigos, entrevistas, colunas e reportagens feitas por um time de colaboradores que também representam o Hip-Hop. Baixe aqui e confira os nossos destaques:
Revista Bocada Forte – Edição #01: O caminho sem volta da diversidade
Pág. 06 – Racismo à brasileira – por Claudinho Silva
Pág. 08 – “Não há retorno” – Rap Plus Size
Pág. 11 – O dia que nos deram é pouco para o que vocês precisam pensar – Coluna do Padeiro
Pág. 14 – Mulheres Beatmakers – por Bocada Forte
Pág. 18 – Pretas de Rua: Graffiti, Gênero e Etnicidades – por Bocada Forte
Pág. 20 – Onde estão as mulheres pretas? – por Barbara e Luciene
Pág. 28 – Nerie Bento e o protagonismo das minas – por Erica Bastos
Pág. 32 – Acervo BF: Homo Links- O rap gay dos EUA (2009) – por DJ Cortecertu
, https://www.bocadaforte.com.br/materias/pessoas-trans-no-rap-brasileiro-e-as-disputas-por-voz-espaco-e-permanencia